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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

13 dias deste quarto ...

 

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 Faz hoje 13 dias que a nossa casa passou a ser este quarto, o teu quarto, o meu quarto … o que é teu é meu e vice versa, sempre foi assim e não será diferente daqui para a frente… o melhor de mim é teu, meu amor. 

Estas duas últimas noites têm sido mais tranquilas. Começaram a dar-te uma nova medicação para secar as excessivas secreções resultado da pneumonia e a quantidade de aspirações diminuíram um pouco. A adicionar a isto, ainda te prescreveram analgésicos para acalmar a dor. Embora me dissessem que não tinhas dor, e tu próprio fechasses os olhos sempre que te perguntava , não acreditei que não a sentisses até porque começou a ser bastante evidente pelos teus gemidos. Percebi que a tua dor vinha do peito. É mais do que óbvio que as tuas vias respiratórias estão traumatizadas de tanta aspiração e dificuldade em respirar. E desde que começaste a tomar os analgésicos acalmaste bastante e estas duas noites conseguimos 5 horas de sono seguido. 
Estou com receio quando te tentarem tirar a sonda. No caso de doença neurológica, vão se perdendo os reflexos e saber comer é um reflexo, assim como respirar … é visível demais os tremores na mão esquerda, certamente que já te apercebeste disso ou não estavas sempre a tentar levantar a mão. O que se passará na tua mente, amor?  De que forma consegues exorcizar os teus medos, as tuas angústias aí nessa cama sem conseguir falar, mexer?? Aperta-me o coração, sei que sofres mas sofres sozinho e não consigo de maneira nenhuma entrar nessa coração e amenizar um pouco a tua dor. 
Agora preocupa-me que os níveis inflamatórios tenham subido. Os médicos andam a tentar perceber a razão e ainda não se chegou propriamente a uma conclusão. Talvez amanhã consigam adiantar qualquer coisa. Hoje apenas me disseram que suspenderam o antibiótico durante o fim-de-semana para tentar entender se o aumento dos níveis viria dos pulmões . 
Entretanto, oiço-te gemer. percebo que tens dor. Já pedi que te fizessem o analgésico. Já foi feito mas continuas desconfortável. Aspiraram-te mas começa a ser insuportável para ti, um misto entre quer ficar mais aliviado mas o processo é tão doloroso e invasivo que praticamente desistes antes de começar. As saturações não estão más mas a avaliar pelo barulho, vou ter de avisar alguém, caso contrário vais te engasgar. 
Já me avisaram que o Natal este ano será por aqui. “Entendemos que este seja um momento de família e que gostava de levar o Paulo para casa, mas infelizmente não haverá condição”, disse-me a equipa médica assim a medo. As lágrimas caíram-me pelo rosto mas acenei que “sim” com a cabeça. Não posso de deixar de compreender e de me sentir mais segura aqui, neste quarto. Já foram dezenas as vezes que tive de gritar a pedir ajuda… em casa não haverá condição, eu sei. Prefiro pensar no que te fará sentir melhor ,  e certamente é estar aqui, ser assistido a qualquer momento. Portanto, sim, vamos passar o Natal neste quarto e até já pensei no teu presente. Bem sei que não estás nem aí, na verdade também não estaria se efectivamente não tivesse um significado muito especial . Pedi a dois amigos ilustradores para concretizarem o “Super P”, o super-herói dos super-heróis com o teu rosto em criança. Há umas semanas atrás, em jeito de brincadeira começámos as aventuras deste super-herói, um menino pintas cheio de criatividade, doce, educado e com o maior coração do mundo. Desde sempre apaixonado por super -heróis, percebe que as aventuras de uma vida não acontecem apenas àqueles seres voadores e de força exorbitante dos filmes. Um dia descobre o seu super poder tornando-se num autêntico . Através de si tem uma bonita missão: a de contar uma história de esperança, de amor e de luta… Esta é a tua história, meu amor e tenho muito orgulho em fazer parte dela… Este super herói é real. Os super-heróis, afinal, existem mesmo e tu és o super P !
 

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muito orgulho em ti meu príncipe.
Marlene Barreto 

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