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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

A ida para Heidelberg

Estou praticamente a cair de podre de cansaço mas tinha de escrever hoje, antes que o sono atenuasse as emoções de um dia intenso com nervos e expectativa à flor da pele. Tudo apontava para um domingo minimamente tranquilo, com apenas uma passagem de Frankfurt para Heidelberg, mas não foi bem o caso. Tal como combinado, o Gert apanhou-nos em Frankfurt de manhã, frente ao hotel. 12 horas certinhas lá estava ele ( além de todas as características, o Gert é super pontual). Seguimos para Darmstadt para pegar a Luci que entretanto não se tinha sentido muito bem e pediu para que a apanhássemos de caminho.

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Entretanto, o Gert, durante a noite tinha - se lembrado de um grande amigo médico radiologista/ especialista em diagnóstico e comentou comigo que achava útil saber também a opinião do Didár (é assim que se chama). Eu disse que sim, na hora, quanto mais mentes a pensar e mais olhos a ver melhor. Ligou-lhe de imediato mas o Didár estava em viagem e voltaria no final do dia. Entretanto fizemos uma paragem obrigatória em Seeheim, localidade onde vive o Gert, para fazermos um “lanchinho” e termos oportunidade de conhecer a Carrol , filha do Gert e da Ive ( o nosso anjinho da guarda).

Aproveitaríamos esta paragem para tratar dos pormenores logísticos para a consulta da terça-feira em Heidelberg. O Gert estará em viagem para a Tailândia, não poderá ir connosco ( com muita pena minha) e como alemão que se preze, é um homem muitíssimo organizado. Entre nós e o Gert só funciona o inglês. e sempre que há uma dúvida entre nós, a Luci (brasileira) e a Carrol (filha de mãe portuguesa, como tal convive com a língua portuguesa desde pequena) dão uma ajuda. Embrulho-me um bocado no inglês sobretudo quando preciso explicar um racíocinio mais elaborado e sim aí, elas são a minha grande ajuda!

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 Apanhei o Gert da cozinha e enquadrei-o um pouco da situação, expliquei que a doença era muito grave e que tu não estavas a par de alguns pormenores como do tamanho da gravidade, prognósticos … não que te queira esconder (nada disso, nunca o faria) mas sinto que não queres saber, não queres enfrentar, já bem basta os estragos que a doença faz no teu corpo. É minha obrigação proteger-te daquilo que não queres saber, embora tenha a certeza que no fundo sabes tudo, sem necessidade de relatórios e estatísticas médicas. Pedi-te apenas que confiasses em mim e tu fá-lo diária e cegamente. Não te quero desiludir mas também não te posso enganar. Cura, essa ainda não existe mas existem tratamentos inovadores, a ponta da tecnologia e é isso que eu procuro. Senti uma conexão imediata com o Gert. Senti-o como um pai , que deste o primeiro minuto fez de tudo para nos ajudar. Quando lhe expus a situação, ele disse-me que já sabia de tudo e acrescentou uma frase que nunca mais me esquecerei: "Marlene infelizmente a saúde também se compra”. Para quem tem o dinheirinho todo contado é muito difícil ouvir isso mas ele tem toda a razão no que diz. Pode não comprar a cura mas compra a qualidade de vida e isso sim é algo que não tem preço. A tua doença é agressiva demais, ela rouba tudo, rouba a tranquilidade, as palavras, os movimentos do corpo, a clareza de raciocínio e tudo se transforma numa nuvem escura. Dói-me o coração de pensar, por isso se tiver de pedir dinheiro para teres mais qualidade de vida, vamos lá a isso!

Como o Gert não vai poder ir connosco à consulta com o prof. Platenn, a Carrol mesmo apesar de estar fora numa formação importante fora da cidade combinou connosco a história de dizer que se está a sentir mal para poder ir para casa e assim ir acompanhar-nos à consulta. Quanto é que se paga por um gesto como este? Não há dinheiro no mundo!

Fazía-se tarde e o Gert trouxe-nos a Heidelberg. Fizemos o Check In e deixei-te no hotel a descansar para fazer o percurso até à clinica. Todas estas pequenas viagens desgastam-te muito, a tua saúde está demasiado sensível, tudo é sítio para fechares os olhos e dormir. Lá fui eu, a Lucy e o Gert . Chegámos ao sítio: Im Neuenheimer Feld 400.

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 O Gert quis ir perguntar na recepção onde teríamos de nos dirigir. Subimos ao piso 1 e lá estávamos nós no “International Office”. Pronto, eu já tinha tudo apontado no telemóvel, nada que enganar. De regresso, ele perguntou-me se sempre queria ir a Darmstat falar com o seu amigo radiologista. “Claro que sim, estou aqui para tratar deste assunto, não tenho nenhum compromisso mais urgente. O Paulo ficou com dinheiro, digo-lhe para jantar se entretanto eu chegar tarde”. E lá fomos nós! Deixámos a Lucy em casa e partimos rumo à casa particular do senhor. De mochila às costas pesada com o computador, a capa cheia com folhas e DVDS do processo médico do Paulo e ainda outra bugigangas, senti-me a verdadeira guerreira em busca do milagre que tantos falam que em alguns casos até pode existir. Só me faltava o escudo numa mão e a espada na outra ( isto já sou eu a desanuviar do cansaço extremo, fruto das horas já tardias). Tocámos à campainha, entrámos pelas traseiras e subimos. WOW, o médico já tinha tudo o que eram livros e capítulos abertos sobre tumores cerebrais em cima da mesa. Cumprimentou-me e fez uma cara de …como vou explicar …surpresa?? “ É o seu marido que está doente? Que idade tem?” …Ok esta é a pergunta da prache sempre que me veem. As pessoas/os médicos já estão acostumada(o)s à doença mas sempre que nos olham nos olhos sentem-se comprometidos. Assim que abriu o DVD explicou-me aquilo que já tinha lido ao longo da minha investigação. "O tumor do Paulo está situado na glia, como quem diz no sistema nervoso central. É uma zona muito irrigada e o tumor tende a infiltrar-se, a ramificar e a crescer à velocidade da luz. Marlene, a sobrevida é no máximo 18 meses e que são muitos os doentes que não chegam nem a metade.” Fiz-me de forte e disse que já sabia de tudo isso mas as lágrimas escorriam . No entanto,tinha vindo de Portugal à procura de caminhos. Mostrei-lhe as minhas investigações, a do prof Wick e a da Próton Therapy, ao que ele respondeu-me que claramente o prof Wick ou o Platten são os especialistas top, portanto vão dar-me as luzes que preciso se elas existirem mas que acreditava que a Próton Therapy poderia ser muito útil no caso do Paulo podendo estender o prognóstico do Paulo mas que me avisava de antemão que é coisa muito cara. - “Muito cara como?”, perguntei-lhe. - “40.000 , 50.000 “ , respondeu ele. Engoli em seco e vieram-me mais uma vez as lágrimas ao olhos. “Tudo bem, se for esse o caminho…” respondi. Disse-me ainda que na terça é muito provável que o prof. Platten peça exames atuais, pois os que tenho são de Janeiro. "Se pedir não hesite, pois consigo fazer o exame ao Paulo ainda na 3ªf e em 2 horas apresentar relatório”, disse-me ele assim que me entregou o seu cartão com o seu contacto pessoal. Ele tinha uma máquina de ressonâncias magnéticas no rés de chão do loft dele. Só fiquei a saber disto quando viemos embora e o Gert me contou.

Vim a mastigar todo o caminho todo aquele momento. Parecia estar a viver o argumento de um filme. É tudo tão surreal. Quando é que me imaginaria na casa de um médico alemão, com uma máquina de R.M em casa a falar do teu caso a um Domingo á tarde? Não há palavras. Vim calada a maior parte do tempo, enquanto o Gert me dava conselhos: “ Marlene será importante pedir um relatório com tudo o que o prof. Platten sugerir que o Paulo deve fazer com o objetivo de apresentar no seu sistema nacional de saúde… Se o prof. Platten pedir exames atualizados o Dirár fá-los em duas horas , não precisa de gastar esse extra no hospital (só uma R.M. custa 700 €) mais a consulta 500 €...Só pensava: “Estamos perdidos. “ Mas ao mesmo tempo percebi que estava tão acompanhada, tão cercada de cuidados, MEU DEUS!!!

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Mal cheguei ao hotel sentia que precisava de respirar um pouco antes de entrar no nosso quarto. Ligaste-me mas disse-te que estava quase a chegar, embora não fosse verdade, era uma mentira piedosa. Precisava apenas de desabafar e liguei à Ive e à minha irmã. Chorei um pouco mas sempre com a promessa que estou e vou ser forte ao teu lado. A Ive chorou comigo… chorámos juntas e ela disse-me algo que nunca mais vou esquecer: “Marlene, a minha família agora é a vossa família e faremos tudo o que estiver ao nosso alcance pelo Paulo”. Se isto não é de uma família é do quê? MEU DEUS, não temos apenas um anjo da guarda … temos tantos… longe de casa mas rodeados de carinho. Não há dinheiro que pague...

Já recuperada, subi o 4º piso e lá estavas tu meu amor no quarto ansioso à minha espera e esganado de fome. Já era tarde e como estava praticamente tudo fechado aqui à volta, encomendámos comida. Comemos em silêncio, pois estavas muito irritado pela demora na entrega da comida e quando é assim eu sei que é preferível não ter grandes conversas, pois apetece-te o silêncio.

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 Assim que chegámos ao quarto perguntei-te ao ouvido: "tiveste saudades minhas?", o silêncio quebrou-se e os beijinhos e os carinhos fluíram como de dois apaixonados .

Amo-te até à lua,

Marlene Barreto Frazão