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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

Abre os olhos, levanta-te e vamos para casa.

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Não consigo encontrar palavras para descrever as vivências destes últimos dias. Os meus níveis de energia estão a zeros, não resta nada a não ser uma angústia enorme ao olhar para ti enquanto dormes “tranquilo”. 

Contabilizamos 19 dias no calendário deste internamento “infinito”. Em todos estes dias as horas de sono rondam 1 /2 horas por noite . A tua agitação, o teu sofrimento exigem um estado de alerta completo. Não é possível dormir, a possibilidade de passar pelas brasas é um luxo. Estás mal, multo mal e agora só me resta acreditar numa passagem tranquila, livre de dor e sofrimento.
Por várias vezes falei com os médicos para me certificar sobre as hipóteses de “recuperares” deste episódio. Nas duas primeiras semanas todos tentaram reverter o quadro de pneumonia. Unimos forças entre médicos, enfermeiros, família e amigos. Entre antibióticos, aspirações constantes, gritos de alarme no momento que desaturavas a pique acreditámos que ainda poderia ser possível levar-te para casa mas agora já percebemos que a pneumonia não é bacteriana mas sim uma défice neurológico que afecta o teu sistema respiratório . E isso muda tudo de figura. É a doença a não dar tréguas. 
Hoje tomo a percepção que já não te vou ver “sorrir”, levantares-te dessa cama e dizer-me:” vamos jantar ao império".... Ou " tenho bilhetes para o Star Wars no imax, despacha-te para irmos!" Vai acontecer em sonhos, memórias e recordações, isso vai. 
Na quinta feira , os cuidados paliativos subiram ao 6' piso do Santa Maria. Tínhamos consulta marcada para dia 16 de dezembro mas como estavas internado, pedi para que a medicina interna os contactasse para que viessem ao teu encontro.
Eu não estava. Foi provavelmente a única hora que me ausentei nesse dia para ir a casa, tomar um banho e trocar de roupa. No entanto, a minha irmã passou-me a mensagem: "os cuidados paliativos vão ligar -te à tarde para comunicar o que foi decidido." A verdade é que bem poderia ficar à espera, mas sentada para não me cansar.
Comportamentos estranhos começam a acontecer em volta do nosso quarto. A máquina da monitorização de oxigênio desapareceu, a máquina de alimentação por sonda estava desmontada em cima da mesa. A tua máscara de oxigênio estava a 60%. E parece que havia uma “ordem" de não te aspirar porque te é demasiado traumatizante. Já percebi que as perspectivas de uma sobrevida mais longa é para esquecer. A partir de agora serão
accionados os métodos de conforto para te sentires sereno. 
Mas estava confusa, assustada… até o capelão foi chamado ao quarto por uma enfermeira não identificada. Parece que se oculta algo. Não entendo! Estou há anos nisto, conheço a doença , sei do prognóstico.... Vamos lá ser sinceros. Não preciso de paninhos quentes agora. O teu irmão ficou comigo.
Talvez possa apontar a madrugada de sexta-feira como a pior da minha vida. Nunca tinha vivido nada assim, nunca tinha imaginado sequer viver. Quase te perdi nos meus braços a agonizar com falta de ar. As lágrimas caíram-me compulsivamente, só te queria mais um bocadinho comigo. É ser egoísta? Acho que não, apenas sinto que ainda não estou preparada para uma despedida. “ Tenho medo”, foram que juro ter-te ouvido prenuniar naquele momento enquanto a falta de ar te tirava forças.  As palavras saíram-te quase sem som mas eram muito claras para eu as perceber. 
“Queres continuar a lutar, amor?!”, perguntei-te desesperada … e acenaste que “sim” . Começámos ali aquele que foi um dos momentos mais fortes daquela noite: “ para fora, para dentro. para fora, para dentro...” e repeti-te estas palavras duas horas de seguida até te sentir mais confortável. Heroicamente, conseguiste recuperar uma respiração mais tranquila. Ao contrário do protocolo definido pelos paliativos (a que resististe devido ao pânico) e  juntando a humanidade da enfermeira C. aspirámos-te e conseguimos subir-te a saturação. Nunca esquecerei que a médica de urgência do serviço dessa noite rejeitou vir ao nosso quarto socorrer-te, com o argumento que és "um doente paliativo que tem uma equipa especializada ... por isso nada poderia fazer"?! . Por ser um doente paliativo merece morrer asfixiado, sra doutora? Parece que os conceitos não se coadunam ... se é paliativo é para partir sem sofrimento....
Agora mais calma, levantam-se tantas questões … Como é que uma médica de urgência rejeita socorrer um doente que está a agonizar? Como é que não existe um médico de cuidados paliativos de urgência? Como é que se pode permitir que alguém parta em tamanho sofrimento, mesmo que o prognóstico delimite o fim?! Que humanidade é esta? Sinto-me pequenina demais perante questões tão gigantes... é mesmo uma impotência enorme.
Ficaste confortável e fechaste os olhos para descansar A tua respiração embora descontrolada, nada tinha a ver com a respiração da madrugada. Ofegante mas mais controlada. 
Fico a olhar para ti e penso que não és tu só que tens medo, amor. Eu também o sinto. Sinto medo de não estares comigo, de não saber como será a minha vida a partir daí. Não quero ser egoísta mas ainda não consegui concretizar na minha mente a ideia de uma partida. 
Tens lutado acima das tuas forças, tens dado o melhor de ti e sinto muito por não poder fazer mais. Não te poder dar essa cura tão desejada, essa melhoria tão ansiada.  Até hoje o nosso amor tem conquistado milagres mas não esse. 
Não te quero ver sofrer mais daquela forma ... não quero uma partida tão cruel... prefiro-te assim sereno, a dormir como um bébé, aquilo que para mim foste toda a vida. O meu bébé.
Um jovem de 34 anos, que só há um mês e meio atrás se viu privado de movimentos, força e capacidades. Um jovem que está muito ligado à vida… não é mesmo suposto aceitar uma partida. Faz pouco sentido. Sentes medo, eu também sinto.
Enquanto escrevo oiço-te respirar profundamente. Por momentos, juraria que não tens nada. A minha vontade é acordar-te e dizer: “Bora, abre os olhos levanta-te  vamos para casa”… queria tanto que fosse possível…
 
Ontem, ouvimos Simon & Garfunkel e Queen . Entretanto passou o Boxer,. Comentei com a enfermeira M. que era música do nosso casamento  Foi um momento forte. Não esqueceremos.
Agora é a vez de Cat Stevens … que tantas vezes ouvimos juntos. 
 
Entretanto a equipa de enfermeiros convidou-me para o jantar de Natal do serviço. Aceitei.  Têm sido  a nossa família. É inexplicável a bondade, a solidariedade e o carinho que sentem por nós. Nunca vou esquecer os serões no nosso quarto em redor da tua cama em que lhes contava o realizador de mão cheia, o marido carinhoso, o amigo fiel, o homem bondoso que és. Que orgulho sinto em ti meu amor. 
 

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Amo-te cada vez mais , sabes disso. 
 
 
 
 
 
 
 
 

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