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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

Até já, príncipe … olha por mim, meu herói

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Ontem deixei-te pelas 11h da manhã, precisava de vir a casa descansar… dei voltas na cama, tive sonhos revoltantes e levantei-me assim que reúni condições. Acordei com as maiores saudades tuas. Precisava urgentemente ver-te e aconchegar-te. Corri para o hospital e lá estavas … à minha espera… beijei-te infinitamente, cheirei-te, dei-te carinhos e limpei-te as lágrimas que corriam assim que sentiste a minha presença. Teve tanto de mágico como de duro, muito duro. Agora entendo, aquelas lágrimas eram uma despedida. Depois de tanta luta, foi a forma que encontraste para me dizer que estavas cansado, não havia mais condições para continuar uma luta tão inglória mas que foi também a promessa de que ficarias comigo para toda a eternidade. Irias caminhar ao meu lado a partir de outra dimensão…  sempre comigo até à lua. Sentiste a minha energia, eu também senti a tua. Foi a combinação perfeita da nossa alma.
A noite começou instável, o dia já o tinha sido, o anterior também. Bem sabemos que o físico já há muito que sofria. Embora as drogas ajudem a adormecer dor física e a atordoar a mente, a dor emocional não se consegue apagar. Sei que sempre me sentiste ao teu lado nestes 25 dias de internamento, deste-me vários sinais disso e agradeço-te pela tua magia. Agradeço-te pela forma como ao longo destes 7 anos enfrentámo este  “assassino”. Agradeço-te por estes 9 anos de amor incondicional em que fomos os seres mais felizes e que apenas o eu e o tu importaram.
Deitei-me no cadeirão ao teu lado e adormeci ao som do teu respirar. Era leve, muito leve. Mas ouvia-se, assim ao longe. Acordei 3 vezes e levantei-me para te tapar, para te beijar, para sentir de perto o teu respirar. Falei com a enf Carolina pressentindo que a tua respiração estava diferente. Ela confirmou que de facto estava leve, mas como ela dizia “ é impossível prever se vai acontecer daqui a uns minutos, umas horas ou alguns dias … sabemos apenas que um dia acontecerá Marlene”.
Voltei a deitar-me. Esforcei-me ao máximo para te ouvir respirar, mesmo com o som baixo da televisão de fundo. O relógio marcava 03h55 quando ouvi um suspiro diferente de todos os outros. Esforcei-me para o ouvir o suspiro seguinte, e o outro e o outro … e o som não saía. Levantei-me e fiquei a olhar para o teu peito. Não mexia, estava imóvel. Toquei-te na mão , beijei-te a cara… estavas tão quentinho. Porque é que não estavas a respirar? Chamei a enf Carolina e a enf Cristina. - “ Não estou a ver o Paulo respirar!”, disse-lhes na esperança que me dissessem - “ Calma, a respiração está apenas mais leve”. Mas não. foram rapidamente buscar a monitorização e após a confirmação abraçaram-me dizendo : “ O teu super-herói partiu.”
Tinhas partido, meu amor. Aproveitaste o silêncio da noite, o som do meu respirar e simplesmente partiste num suspiro doce e ténue. Sem sofrimento e isso ninguém me contou, fui eu própria que vi e ouvi. Nunca ficaria em paz se não tivesse sentido a paz que permitiu a tua partida.
Só te quis beijar, abraçar e ficar junto do teu peito mesmo que ali já não batesse um coração. Aquele corpo foi a morada da tua alma, a residência de um ser humano de que me orgulho muito. Um homem como nunca conheci nenhum. Havia sempre uma flor mesmo que não existisse motivo algum, um sorriso para todas as ocasiões, um carinho para aconchegar o coração em qualquer circunstância. Sempre foste de poucas palavras mas de gestos gigantes. Foste um herói em cada momento. Deitaste fora um prognóstico terrível que, há 7 anos atrás, deu-te 12 meses de vida e decidiste ser apenas FELIZ. Fomos felizes, vivemos uma história de amor de que me orgulho demais . Mas agora vão ficar as saudades. Saudades tuas ao entrar em casa, saudades de acordar ao teu lado,  saudades do teu cheiro, saudades do teu ronfonfô, saudades das nossas produções juntos, das nossas viagens de carro, das idas ao hospital, dos fins-de-semana a ver filmes, saudades dos teus beijinhos pelo meu corpo… SAUDADE é a palavra que fica. E dói, vai doer, vai doer demais e agora é de ti que espero ajuda, ajuda para superar, para caminhar, para conquistar sonhos, para buscar a luz.

Olha por mim do sítio onte estiveres. Mas olha mesmo. Tal como te disse ao ouvido, é um "até já… é só até nos reencontrarmos outra vez".
E tal como te prometi, não vale a pena andar à procura de argumento para uma bonita história. A tua é lindíssima e digna de uma bonita “produção”. Farei a minha parte, bichinho, só tens de fazer a tua aí de cima e teremos uma belissima história cinematográfica sem precisar de artíficios e pormenores inventados.

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Foi um orgulho partilhar estes anos todos ao teu lado. Um privilégio.

Amo-te até á lua!
Marlene Barreto Frazão

 

PS: antes de me vir embora, entreguei o postal que tinha escrito no dia de natal em agradecimento a toda a equipa de enfermagem. Falei-lhes quem eras ... não seria justo não te dar a conhecer, não mostrar o melhor de ti. Abraçaram-me dizendo: "não são apenas vocês a agradecer. Falamos em nome de toda a equipa, a vossa história ensinou-nos muito. Tudo o que foi feito durante estes 25 dias foi feito com o maior prazer, Marlene."

 

Obrigada à medicina 1A do hospital de santa maria pelo carinho e pelo afecto. Foram a nossa família estes dias.

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