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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

".. então para semana à mesma hora ?"

Hoje acordei com a percepção que já não cuidava de mim há algum tempo. Olhei ao espelho  e pensei: “ Hum … não sei se te reconheço. És a mesma pessoa? Aquela que conheci há uns anos?“ ...Não que esteja assustadora, calma! Mas sempre fui vaidosa, era raro o dia que saía de casa sem maquilhagem e cabelo esticado.  -"Nunca tiveste muita paciência para escolher a roupa que vestir mas nem dar atenção à conjugação, apanhar a primeira quase sem praticamente olhar também me parece estranho em ti”… continuei nos meus pensamentos enquanto olhava fixamente a minha imagem ao espelho. Ainda tentei fazer o “exercício do olhar”, aquele que fazia nas aulas de Stanislavski para tentar compreender o que diziam os meus olhos, a minha alma … mas eles não quiserem grande coisa comigo. Hoje era mesmo dia de fazer alguma coisa por este cabelo com jeitos, mimar a minha pele com uma máscara hidratante … perder algum tempo numa make up como deve ser…. enfim dei-me ao luxo de ocupar por mais de uma hora a casa de banho da tua mãe. Depois de um bom banho, fiz quase tudo o que tinha direito. Parecem coisas superfúlas é verdade mas são essas pequenas coisas que mostram como nos esquecemos de nós.

Acordei bem disposta …. começaram a surgir boas novidades quanto a trabalho… trabalho na minha área, coisas que me fazem sorrir, que me dão vontade de levantar da cama e olhar em frente, sentir aquelas borboletas na barriga, ver outras pessoas, conhecer outras tantas. No fundo também sentir-me viva, preciso disso!
Querer voltar ao trabalho também foi um processo… é como uma construção que foi levada por um tsunami, depois é preciso reconstruir degrau a degrau… É toda uma mente que precisa de ser estruturada, aprender a lidar com a impermeabilidade da vida, usar forças físicas e emocionais que nem imaginamos ter, conseguir uma convivência pacífica entre a mente e o coração ( este sim é o tópico mais difícil) e por fim aceitar e ser feliz com o que temos e partilhar . O significado da partilha é algo que me apercebi nos últimos meses, quando percebo que nada do que vivemos é por acaso … e sim partilhar não só o que sinto, não só o que sei mas o que fiz por querer fazer. Tenho a certeza que no tempo certo conseguirei mostrar e fazer essa partilha com toda a minha humanidade, com tudo de mim. Farei com certeza, só preciso de tempo e serenidade…. Há tanto por dizer, tanto por fazer. 
Depois de me ter predisposto a um make extreme matinal , lá fomos nós para a segunda-feira de hospital. Péssimas notícias: Plaquetas Baixas, mais baixas ainda que na semana passada. Desta vez estavam a 20.000. 
-"O Paulo fez 2 tratamentos de eletromedicina, água do mar, Camu Camu, Ómega 3, passou a semana a comer papaia e sopa de beterraba … mas o que é que é preciso fazer mais ???” ; perguntei desesperada à médica. - “Marlene, isto é mesmo assim…. as plaquetas baixam mesmo, há muita toxicidade no organismo”, respondeu -me . - “ Ok, mas então o que é que se pode fazer para subir as plaquetas? É que não consigo perceber, fazem-se tratamentos agressivíssimos, o doente fica imunodeprimido e não existe nenhum aconselhamento de suplementação, nada para ajudar a libertar a toxicidade ? É que de repente parece que nos puseram a correr a maratona e não nos dão estratégias para chegar a bom porto. “, disse com um tom um pouco arrogante , bem na verdade até acho que não foi assim tão pouco. Ao que ela me respondeu praticamente no mesmo tom: - “ Se soubéssemos que a beterraba sobe as plaquetas já havia um medicamento feito da beterraba, não acha? Benvinda à luta diária do serviço e oncologia: conseguir restabelecer os doentes para os tratamentos” , rematou . - “ Ok, então para semana cá estaremos à mesma hora , é assim não é?”, questionei um pouco amuada, como se isso fosse mudar alguma coisa. - “ Sim é melhor! Pois marcar novas análises para daqui a dois dias parece-me pouco”, acrescentou. 

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E pronto cá estávamos nós naquela situação que já parece estar no modo “repeat”. Antes de nos levantarmos a médica ainda quis saber como tinha corrido a nossa viagem à Alemanha. Acho que até agora foi das únicas pessoas que quando lhe disse “ O doutor falou que o Paulo não poderia entrar no ensaio clinico, nem fazer a Proton Therapy mas que ainda tem 2 ou 3 combinações” esboçou um sorriso. No fundo, porque é das únicas que percebe o verdadeiro significado do que é ter 2 ou 3 combinações num mundo tão limitado como este. - “ E o que é que o doutor pediu? ", perguntou. Lá lhe expliquei tim tim por tim tim, ao que ela me pergunta: - “ Mas quer que lhe mande algum e-mail?”, - “ Não, ele depois de ver o exame envia-lhe o relatório com a sua opinião médica” … rematei. 

CHECK MATE! Era mesmo isto que eu queria. Entrosá-la, mostrar como podemos todos trabalhar em conjunto, como podemos beneficiar tanto, o Paulo pode beneficiar, os doentes deste tumor cerebral podem beneficiar ….Apeteceu-me dizer-lhe “ gosto tanto de si…" , sim porque a nossa relação é assim , quase que parece a relação entre pais e filhos, em que os filhos amuam, depois os pais lhes pregarem um sermão e depois fica tudo bem. É mesmo assim que funciona! Ela sabe que sou bem mais intempestiva e impulsiva. 
-“ Bem , saio daqui mesmo muito  triste , é só para que saiba”, disse -lhe antes de nos despedirmos. Tu olhavas para mim e depois para ela com olhos de quem quer dizer : - “ Vá acabem lá com isso, se não é para fazer tratamento porque é que eu ainda estou aqui?” E pronto lá nos levantámos e rematámos o nosso encontro: “ Ai Paulo, Paulo eu acho que não é a Marlene que deve cuidar de si mas você é que tem de cuidar dela? “, disse ela dando-me a mão com força ( soube tão bem) … sorri-lhe … 
Viemos para casa sem falar mais no assunto. Não quis remoer nisso contigo. 
Claro que enviei logo e-mail aos indianos a explicar o que se está a suceder e a pedir “alternativas” para combater o nível tão diminuto das plaquetas e já retomei novas investigações. Próxima experimentação : Albumina em Pó ( foi o que o Dr Nuno Nina receitou). Vamos ver se chega até quinta - feira, ainda por cima não é algo que se venda tão facilmente. 
“ O que afinal mata o doente oncológico não é a doença em si mas as consequências da quimioterapia e da radioterapia. A quimioterapia provoca a morte das células boas e más, mas nem sempre todas as células malignas morrem. Se são resistentes à quimioterapia não morrem, enquanto que as células saudáveis morrem por apoptose, as células malignas não morrem por apoptose se houver mutação do gene P53 chamado supressor do cancro podendo proliferar durante o tratamento”, refere o professor Serge Jurasunas nos seus estudos, assim como toda a medicina alternativa . Se a quimioterapia  e a Radioterapia são para já as únicas armas para se combater esta doença tão agressiva, então é urgente pensar no restabelecimento do corpo, na libertação da toxicidade do mesmo. Como é que um doente consegue aguentar doses tão elevadas de veneno mensalmente? 
 
Enfim , restou-nos um jantar divertido ao som de Caetano Veloso . “ Gosto muito de você leaozinho” foi a música que me apeteceu cantar para ti. 

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 Amo-te até à lua meu anjinho, vou já para a caminha. 

 
Marlene Barreto Frazão 

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