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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

És a melhor homenagem aos super-heróis

capitão america.jpg

 

Faço check no calendário no dia 24 de internamento. O Natal foi passado aqui  no hospital, tal como o Universo escreveu nas estrelas. Continuo à procura de respostas às dúvidas que este tempo suspenso proporciona no meu coração. Todos os dias dói e dói um pouco mais, mesmo sabendo que os prognósticos é que um dia já não custe assim tanto.
Fui descansar a casa, tomar um banho e ver a luz do dia… já não a via desde o dia 24 à tarde. Sentia falta. Mas repentinamente bateu uma saudade tão grande. Despachei-me e corri para o hospital. Abracei-te, beijei-te e disse -te , calmamente ao ouvido: “senti tantas saudades tuas". Assim que sentiste o aconchego da minha pele, começaste a chorar… limpei-te as lágrimas. Sabia que me estavas a ouvir. É tão mágico. Acariciei a tua pele sedosa, percorri o teu pescoço de beijinhos e elogiei a t'shirt que pedi que te vestissem: a do capitão américa. Todos os dias, temos feito homenagem a um super herói diferente: iron man, superman, star wars e hoje é dia do capitão américa. Peço desculpa por rasgar algumas das tuas t'shirts favoritas. O teu amigo G. ofereceu umas quantas e o teu irmão M. ofereceu também a do star wars para esse efeito. Fazer um rasgão atrás das costas é a única forma de as conseguir vestir , pois é preciso uma abertura fácil e as t´shirts têm tudo menos uma forma fácil de vestir nestas circunstâncias.
Enquanto escrevo, sinto a tua respiração tão instável. Está cansada mas a querer resistir…. como se o dia de amanhã ainda pudesse trazer consigo a esperança de uma cura. Fico perfundamente triste por não te conseguir dizer nem uma palavra de esperança, neste momento. Remeto-me ao silêncio, preenchido pelo som da música da Mariza “melhor de mim”, que marcará profundamente esta nossa fase de vida. Todos os dias, várias vezes toca na rádio e transforma-se na banda sonora desta estadia interminável aqui no hospital de santa maria.
No dia de Natal, fui comprar um lindo ramo de flores e uns chocolates como forma de gratidão pela forma como nos têm tratado aqui. São uma família, sinto-o. Escrevi um mega postal a contar e a descrever quem é o verdadeiro paulinho. Não é justo que estejas cá há tanto tempo e que as meninas ( enfermeiras) não tenham oportunidade de te conhecer. Perceber o sorriso lindo que tens, o humor fantástico , o coração gigante, a criatividade gigante, a energia contagiante. No entanto, não tive ainda coragem de o entregar. Entreguei as flores e os chocolates, o postal está guardado na mochila à espera de “sentir” o momento certo.
Levantei-me agora, e fui dar -te mais um beijo, mais um abraço e limpei mais uma lágrima tua. Desejava tanto que estivesses em paz mas não depende de mim. Sentir que sentes a minha energia é tão reconfortante por um lado, mas tão inquietante por outro. Sei que te alimentas dela …e podes alimentar-te à vontade, até quiseres, até conseguires. É por isso que aqui estou, para te alimentar visto que já não há mais alimento que o faça.

quero-te muito bem, quero o melhor para ti. Que Deus decida em consciência.
adoro-te muito,

 

 


até à lua.
Marlene Barreto Frazão