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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

Feedback do prof. Wick

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 Ainda não consegui ir para a cama, sinto-me ansiosa com o coração apertado. Estou assim desde de manhã e não sei explicar o porquê, ou secalhar até sei mas talvez não me apeteça concretizar os meus pensamentos e não lhes queira dar ouvidos. Mas este debate interior acaba por ser tão ensurdecedor que não dá descanso. 

Deveria estar mais alivíada, parece que estamos prestes a conseguir a tão desejada consulta em Heidelberg com o investigador alemão W. Wick. Este contacto anda a arrastar-se há semanas e é uma ansiedade gigante. Bem sei que até há um tempo atrás não havia qualquer perspectiva dele nos atender. Mandei -lhe e-mail assim que soube dos estudos que ele está a liderar em torno da vacina antitumoral que pode ter efeitos extremamente importantes no cancro cerebral . 
(Ver artigo: http://www.dkfz.de/en/presse/pressemitteilungen/2014/dkfz-pm-14-32-First-positive-results-toward-a-therapeutic-vaccine-against-brain-cancer.php
Mas não houve qualquer resposta, o silêncio fez-se sentir. Mas acredito que nada acontece ao acaso. Qual é a probabilidade de estar a falar com uma amiga minha, com quem já não falava há imenso tempo e que ficou a saber da nossa situação pelos meus posts no facebook, cuja madrasta tem um genro que trabalha em Heidelberg e talvez conseguisse um contacto com o prof Wick? Não sou boa em matemática mas penso que se perguntasse a alguém entendido talvez me dissesse que é pouca a probabilidade. Há pessoas que têm uma missão nas nossas vidas, há pessoas boas genuínamente ... e fico tão orgulhosa disso. 
Em apenas algumas horas, procurava-se em Heidelberg o paradeiro deste prof Wick. Dois dias depois, já se sabia que ele existia mesmo entre aquelas paredes da universidade de Heidelberg mas que iria estar fora durante uma semana em congressos mundiais. Duas semanas depois chega a informação que ele já conhece a tua história, (considera uma espécie de milagre ainda estares por cá) e que aceita receber-nos para uma consulta.
Hoje, chegou mais um feedback do próximo passo, ter de tratar da questão burocrática antes da consulta por causa da questão dos seguros alemães … coisas que na verdade não entendo mas a ideia que falta tão pouco para marcar essa bendita consulta deixa-me em pânico. Tremo só de estar a escrever…. não posso pensar que todas estas coincidências, toda esta luta não tem uma razão… são muitas expectativas para se gerir e pode ser perigoso emocionalmente. É uma viagem que traz consigo sentimentos de esperança mas que não deixa de ser apenas uma consulta. 
Hoje em dia sinto-me mais forte mas sei que é uma sensação ilusória, sei que no primeiro tropeção esta força esmorecerá … queria estar bem fortalecida e inquebrável mas eu sou feita de matéria simples, humana e não muito sofisticada. 
Aquela conversa a sós com a Dra Luísa deitou-me abaixo de uma forma brusca. A consciência de que estamos a caminhar sobre uma corda fininha a uma distância de muitos metros do solo é tenebrosa. Mas não é tempo de cruzar os braços, já conheço este inimigo de frente, ele já nos mostrou do que é capaz, não tem respeito ou consideração por de nós.
Durante estes 5 anos, desde que foi detectado pela primeira vez, nunca quis conhecer muito a entidade deste bicho feio, sabia que era mau, poderia voltar mas apenas isso me bastava. As coisas tinham corrido bem e só isso era importante. Escarafunchar mais nele era dar-lhe a sua importância e preferi não o fazer. Não sei se foi melhor ou pior. São vários os médicos que me dizem que se tivesse a devida consciência da sua agressividade não teríamos sido tão genuinamente felizes, e disso tenho a certeza absoluta. Por outro lado, se tivesse querido conhecer as profundezas desta doença, como estou a fazer agora, talvez tivesse conseguido agir na prevenção antes do ressurgimento. Sei que não a tenho mas não consigo abandonar este sentimento de culpa. Sinto que não mereço rir se estás triste, que não posso pensar nos meus projetos e nos meus sonhos se não estiveres bem para fazer parte deles (mas sei que só a a minha paixão pelo meu lado profissional que me ajudará a fortalecer) … Sei que não tenho culpa, mas sinto pena de nós.
Há quem diga que Deus só dá grandes lutas a quem as consegue aguentar. Mas já disse tantas vezes a Deus que bateu à porta errada, eu não sou dessas, não consigo aguentar dessa forma. Caramba isto é inaguentável!!! E é incrível como o nosso estado de espírito muda a cada dia, a cada hora. Hoje acordei preocupada, entretanto consegui dar a voltar e concentrar-me no trabalho ( comecei hoje a escolher o texto da peça de teatro que quero levar para cena, neste momento tenho 5 hipóteses em cima da mesa), depois recebi o telefonema com o feedback de Heidelberg e agora estou assim em pânico sem sono só com vontade de chorar… uma treta é o que é!!!
 
Por agora já dormes tranquilamente … gosto tanto de ti meu amor, se eu pudesse a nossa história seria outra neste momento estávamos apenas a ser felizes que é coisa que nos últimos meses temos de ser de forma tímida só quando esta “ besta” nos permite. Hoje disseste que me amavas, deste-me mão enquanto conduzia e ouvíamos a música “ Yesterday”. Foi especial. 

 

 

 
Marlene Barreto Frazão 

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