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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

"Há quantos anos tenho Cancro?"

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“Há quantos anos tenho Cancro? “ perguntaste tu, assim meio que do nada enquanto tomávamos café no hospital , sim porque hoje foi dia. -“Acho que há mais ou menos 6 anos”, respondi-te engolindo em seco com aquela pergunta inesperada. Tentei relativizar fingindo nem me lembrar bem para não dar peso àquela pergunta e consequentemente à minha resposta, mas percebi exactamente o que estavas a pensar. Engraçado que senti o mesmo assim que acordei de manhã : “Mais um dia naquele hospital…” De facto são 6 anos que de 15 em 15 dias (sem descanso) passamos 7 horas entre aquelas paredes. Bem podemos rir, brincar mas pesa, pesa muito … o teu corpo perde energia para se levantar de manhã sempre que é dia de hospital, e não tendo eu muita mais , tenho de fingir que tenho… sim fingir porque é isso que faço finjo que é mais um dia … “Bora lá acordar!!!” como se ...uhhh... adivinhasse ser um dia dia super divertido , com a energia positiva bem lá em cima. Há 6 anos que finjo, há 6 anos que acreditas no meu fingimento mas se tiver de continuar a fingir e te conseguir dar força, vontade e esperança para te levantares da cama para mais um dia de hospital , então continuarei a fingir.

Ainda levei o computador para ver se trabalhava mas mal o abri , “ Paulo Nuno Frazão - gabinete 3 “, ouvimos pelo interfone a doutora chamar. 
Conhecida como “a bruxinha das análises” , como diz a dra, previ que hoje não fosse acontecer tratamento. “ Será que as análises já saíram ou eles estão a contar uma a uma lá em baixo? “ , perguntei eu em tom de ironia . “- Lá está a bruxinha das análises a tentar adivinhar… “ respondeu a doutora devolvendo o mesmo tom. 
Pelas minhas contas, hoje era dia de estarem baixinhas. E estavam , 30,000 . Baixam imperativamente e não há nada a fazer contra isso, mas continuo a acreditar que é necessário estimular a medula óssea com o uso de suplementação,  alimentação adequada e eletromedicina para que o tempo de quebra seja o mais pequeno possível . Acho que dentro da medida do possível temos conseguido
Assim que a doutora nos disse, que as plaquetas estavam “miseráveis”, começaste a rir ( acho que foi mesmo pela expressão que ela usou) mas para mim não foi surpresa. -“Tem já uma verdadeira médica em casa, Paulo”, observou ela. - “Médica é tudo aquilo que não quero ser.” , disse-lhe. - “A Marlene era daquelas que em miúda desmaiava ao ouvir falar de doenças?”, perguntou-me, ao que lhe respondi: -“Desmaiar não desmaiava mas sempre fui hipocondríaca"; - “ Para uma hipocondríaca nem se está a sair mal! “, continuou. Juro que esta observação mexeu comigo … o que queria ela dizer com isto? É suposto ser um teste? Sair-nos bem ou mal? Não sei se gostei , não gosto de me sentir avaliada nesta situação , já bastam todas as outras situações profissionais da minha vida. Sei lá, soa a : “ até tem estado +/- à altura da coisa …” Bolas , todos os dias faço para tentar estar “+- à altura da coisa”, faço uma ginástica mental para mandar o destrutivo para trás das costas , tento desempenhar um papel de apoio imaculado suportando-me única e exclusivamente nas minha horas de terapia e no meu trabalho que é aquilo que me sobra. Portanto, não compreendi o que seria o contrário daquela observação ( ou seja, aquelas pessoas que supostamente não se saem tão bem), mas siga, é mais uma daquelas que vai para trás das costas. Um dia quando tiver de arrumar a casa , ou seja aquilo que vai  “ para atrás das costas” vou encontrar muita porcaria para limpar… enfim!!!
Saímos do Hospital , tirámos a nossa habitual foto e aproveitámos para vir a discutir o nosso projeto de teatro. Sei que a tua emoção não é a mesma que a minha, sei que muitas vezes nem ouves o que te estou a dizer mas já me alenta o coração saber que gostas da ideia. Sim tudo tem partido da nossa vivência e da experiência naquele hospital. Sinto que há uma mensagem muito forte para se passar e quero muito fazê-lo contigo, este é uma espécie de voluntariado e de solidariedade para com os que passaram, passam e os que hão de passar por este terrível caminho movediço. 
Espero em Setembro conseguirmos pôr mãos à obra, estou ansiosa, tenho inclusivamente medo de não estar à altura, mas esse é mais um pensamento que tenho de mandar para trás das costas …. vamos mas é desbravar caminho, pedir ajuda a todos os que nos podem ajudar e deixar a nossa marca. 
 
hora dos miminhos, já aí vou baby … 
 
… até à lua ….
Marlene Barreto Frazão