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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

uma noite sem fim!!

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São 07h30 e não preguei olho. A tarde de ontem já não tinha corrido bem, pois tinha sido marcada por duas baixas de oxigénio que se traduziram numa noite de pesadelo. No início da noite , ainda te achei desperto e razoavelmente bem mas por volta 01h00 a tua respiração começou a ficar ofegante. As aspirações têm sido constantes mas mesmo assim insuficientes para a quantidade de secreções que "nascem" nos teus pulmões. Na altura, quando pedi que te aspirassem, disseram - me para esperar e ainda fizeram a observação que não o poderiam estar sempre a fazê-lo, pois estaria a causar trauma na zona, e sim já me tinha apercebido pelo sangue no depósito de secreções.  Mal conseguias respirar e os teus níveis de oxigénio no sangue começaram a descer a pique. Corri para o corredor para chamar alguém , enquanto a máquina apitava marcando 70% de so2. Assim que a enfermeira chegou, disse-me que já te tinha colocado a máscara dos 100% e que muito mais não dava para fazer.  Estas palavras do " muito mais não dá para fazer" é o típico discurso que tenho ouvido nos últimos tempos... Perguntei-lhe se não dava para fazer os ventiladores/bombas que as colegas costumam fazer. No entanto, a oxigenação já marca 60%... e lá se decidiu chamar o médico de urgência.... Na verdade o senhor também pouco tinha para ajudar sobretudo as palavras pouco esperançosas. " sabe qual é o prognóstico,  não sabe? deve-se preparar para o pior ". Pedi-lhe encarecidamente para não falar de prognósticos ali no quarto contigo, nunca o tinha feito ao longo de 7 anos, não ia ser agora. Estás a lutar pela vida, não é justo! Pediu-me desculpas e saímos para falar. Expliquei-lhe que na primeira noite tinha acontecido isto e que a médica o tinha mandado posicionar de determinada forma. O médico concordou com a "solução" e assim se fez o posicionamento para um dos lados. No fundo o que se está a fazer é desobstruir um pulmão, passando as secreções para o  outro. A oxigenação começou a subir, graças a Deus....conseguiste ficar calminho pelo menos umas horinhas mas por esta altura já estava em sobressalto demais para conseguir dormir. 

Serviram-nos um chá calmante, a mim e à minha irmã que estava comigo. Ainda fui ao cadeirão meia horinha mas os atacadores dos ténis demasiadamente apertados e a necessidade de não querer entrar em sono profundo mantiveram-me alerta. 

Estava impaciente e nervosa com o barulho que estavas a fazer enquanto dormias. Era um gemido de sofrimento, pudera, estás a sofrer horrores e sou testemunha disso . Precisamente nesse momento que te estava a tentar acalmar, fazendo as já típicas festinhas na testa, apercebi-me que algo te estava a acontecer: olhos bem acesos, dois gritos já bem reconhecidos antecedem a convulsão. Não estava a acreditar!!!!  "Que mais vai acontecer esta noite?! Isto é muita coisa para uma só pessoa!" Carreguei na campainha de emergência e posicionei-te para que não te engasgasses. Vim até à porta e gritei! Meio segundo depois estavam ao teu lado duas enfermeiras e um médico. Preferi sair. Não estava a aguentar ver tanto sofrimento.... Lembro-me de estar frente a um placard de saídas de emergência e ter pregado dois murros de raiva, caíram-me incontrolavelmente lágrimas, respirei fundo e voltei a entrar. O ataque tinha terminado mesmo antes da injeção SOS....corri para ti e dei-te um beijo, um beijo na testa, no ombro, no pescoço. Era o máximo que conseguia fazer, infelizmente.

Não consigo aceitar que uma pessoa tenha de passar por este sofrimento todo. Defende-se "não à dor, ao sofrimento antes de partir" então isto é o quê?! 

Não aguento mais ver-te assim, sobretudo porque sei que estás a sofrer... Os teus olhos revelam consciência e descrédito ao mesmo tempo. Sabes perfeitamente o que está a acontecer , aliás mais que ninguém, sentes. E eu, eu só sinto impotência e tristeza. Já nem consigo dizer-te nada, faltam-me as palavras!

A enfermeira do turno da manhã veio agora falar comigo sabendo que a noite não foi fácil ... Deu-me um carinho e mandou- me para casa recuperar força, mas a verdade é que fico com receio que não te oiçam se precisares de alguma coisa :( 

 

Vou então ... Até já príncipe. 

Um grande abraço apertadinho com o meu cheirinho e um coração cheio de amor é o que tenho para deixar.

 

Marlene Barreto Frazão 

 

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