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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

O preconceito existe

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 Se há dias que acredito no ser humano, há outros que sinto vergonha.  se há dias que conheço a mais pura das generosidades, há outros que me deparo com a mais pura das cobardias sociais. Hoje, conheci de perto o lado do preconceito. Estava longe de imaginar que ia sair de casa bem cedo para viver e ouvir a situação que vivi. A quem contei a história, relativizou e de forma encorajadora disse-me que este tipo de opinião não  mereceria o meu tempo e os meus pensamentos sobre o assunto, e não lhes tiro, de perto nem de longe, a razão… mas mexeu com o meu equilíbrio, usou uma fraqueza minha para me tirar o tapete …  e juro que estou a esforçar-me ao máximo para não emitir qualquer juízo de valor, não sou ninguém para o fazer. Mas no final dei por mim, a bater de raiva no volante do meu carro, que culpa nenhuma tinha da situação.  

 
Decidimos procurar uma nova casa para morar. Já há bastantes meses, diria mesmo 1 ano, 1 ano e meio que tenho na minha cabeça poupar um pouco mais nas despesas. Vivemos numa zona lindíssima, uma urbanização nova, cheia de novas famílias, movimento e há 4 anos que usufruímos de uma casa pela qual somos apaixonados. Sentimos o cheiro do campo e da cidade em simultâneo, nas minhas noites de insónias só este nascer do sol devolve-me a energia, além de estar repleta de vivências e recordações de um inicio de uma vida a dois. Sei que não adoras a ideia, mas está na hora de encontrarmos outro ninho do amor onde possamos continuar a ser felizes mas de uma forma mas comedida. A felicidade depende de quem e não do que temos na vida. 
Iniciei esta demanda no final da semana passada. Procurar uma casa onde queremos morar não é fácil, olhamos para tudo, os azulejos da cozinha, as loiças do WC, a dimensão da sala para caber os nossos milhentos dvds. Já percebi que não será fácil mas não será, concerteza, uma missão impossível. 
Tinha marcado hoje uma visita para as 10h45, num bairro perto da nossa casa. Estava reticente em ir, até parece que já tinha pressentido , mas tinha marcado e não costumo falhar aos compromissos nem tão pouco ligar à ultima hora a desmarcar. Fui, cheguei mais cedo do que o previsto, aproveitei tomei um café lá perto e aproveitei para explorar a zona enquanto me tentava entusiasmar com este novo passo. Estava a fazer-se horas, cheguei-me para perto da entrada do prédio até que ouvi o telefone. O proprietário estava a chegar e queria saber se eu estava perto. Descobri-me, ele viu-me e cumprimentámos-nos, um aperto de mão parece que distanciou logo qualquer intimidade que se pudesse ali criar. Subimos, e deixou-me totalmente à vontade para explorar cada canto e recanto. O gelo inicial foi-se quebrando e perguntas como : "gosta da zona? o que faz profissionalmente ? Porque está a sair do sítio onde vive atualmente se é uma zona tão bonita?” foi dando azo a uma conversa desprovida de formalidades. Senti que estava perante uma pessoa agradável de conversa, tranquila e jovem ( pouco mais da minha idade) …e a um dado momento calhou em conversa esta fase pela qual estamos a passar. Não tenho de contar, mas também não tenho de esconder. Calhou em conversa, apenas isso. E assim que falei em “doença oncológica”, os olhos da pessoa com quem estava a falar tão informalmente baixaram e depois de uma longa pausa, ele voltou a subir o olhar e disse-me: “ Esta conversa nunca deveria ter existido.” Na altura, franzi o sobrolho e questionei: “ Como assim?”… “Nunca me deveria ter contado tal coisa, porque quando eu arrendo um imóvel eu penso na longevidade com que os inclinos vão ter esse imóvel arrendado e ao ao dizer-me tal coisa, deixa-me desconfortável porque estamos a falar numa doença com data”. - "Wow, uma doença com data? O que é que está a querer dizer com isso?", voltei a  perguntar porque achava que não estava a entender bem onde é que ele queria chegar com aquela conversa. Mas não, estava a entender perfeitamente o que é que ele queria dizer com aquilo. “ Sabe o que é cancro?”, perguntei-lhe esperando que ele tivesse a minima noção ( quem é que já não ouvi, viveu ou acompanhou a história de um amigo, um familiar) e pela minha surpresa ele disse: “ Não. Nunca tive nenhum!”. Muito bem, decidi contar-lhe uma história "…era uma vez uma célula que como todas as milhentas no nosso organismo se multiplica, mas nesse milésimo segundo em que essa ação estava a acontecer, ocorreu um erro genético e essa mesma célula degenerou e em vez de se multiplicar de uma forma “normal”, começou a proliferar de uma forma “anormal” … isso  é o Cancro. Portanto com esta pequena história, resta-me dizer que esta doença não surge apenas às pessoas que fumam, que bebem que têm um estilo de vida desordeiro. O Cancro é uma questão de ter sorte ou de ter azar …. qualquer pessoa o pode vir a ter …e a forma como está a reagir ao tema é tão obtusa, egoísta e preconceituosa…” - “Então está-me a chamar egoísta?” - perguntou ele com um sorriso nos lábios. - “Estou a dizer-lhe que me está a falar de futuro à boca cheia, se você não sabe sequer qual é o seu ?” , disse-lhe - “O meu futuro, eu sei.” - respondeu-me ele.  - “Não, não sabe. Sabe sim o futuro que gostaria de ter, mas se ao descer estas escadas e atravessar aquela estrada, for atropelado  o futuro que diz que terá, pode rapidamente fugir-lhe por entre os dedos. E poderá ter um futuro, claramente diferente do que teria imaginado”. 
Achei tão surreal estar a ter aquela conversa … É que já tinha tomado a decisão que eu é que não queria que ele fosse o meu senhorio. Se ele estava com dúvidas, eu não estava. “ Nunca deveríamos ter começado esta conversa” - disse-me mais uma vez . E ainda acrescentou: “ Se eu tivesse um cancro, eu iria esconder numa situação de negócio”. Ouvi, pensei no que é que ele estava a dizer e respondi: - “Escondia ? Mas sabe que há não é uma coisa que dê propriamente para esconder. É que além da questão do negócio ainda me está a dizer que receava a opinião das pessoas... ao contrário de si, acho que ainda bem que esta conversa aconteceu, porque assim percebe rapidamente que nós não somos os inclinos que idealizou e volta à sua merdinha de vida, procurando os inclinos perfeitos cuja história de vida o deixem confortável ao inicio de cada mês. “ respondi-lhe de uma forma rude e com ar de nojo. 
Tinha de ir embora,  estava com pressa e já tinha passado em muito da minha hora, mas aquela pessoa continuava a usar argumentos esfarrapados para filosofar de uma forma barata sobre o que não conhece e teimava em prender-me ali.
Vim embora, e de longe ainda gritou: “ As melhoras para o seu marido, está a ver já suscitou em mim um sentimento de pena” . Gritei-lhe também:“ Não preciso da sua pena, guarde-a para a sua família ou para si próprio se um dia precisar dela.”, pena tenho eu do destino o ter cruzado no meu caminho … Não tenho de ser eu a mostrar seja o que for a esta pessoa, só a quero ver bem longe sem qualquer probabilidade de nos voltarmos a cruzar.
Não precisava disto para o meu dia, fiquei incrédula, irritada sem conseguir explicar a ninguém a dimensão do que estava a sentir. Não me tinha deparado ainda com este sentimento, com esta experiência de preconceito sobre a doença, a doença que ninguém tem culpa de possuir… a tamanha insensibilidade, a crueldade em palavras. Ele até poderia sentir tudo o que disse ( era mau mas ninguém controla o que sente e neste mundo a realidade é mesmo esta, o dinheiro fala mais alto) mas não o diria, não o expunha da forma que o fez. Disse tantas mais coisas, disse-lhe outras tantas mais mas na verdade, nem me apetece reproduzir tim tim por tim… 
Mas o mais surreal, foi que 1hora e meia a seguir recebi uma mensagem : “Gostei de a conhecer Marlene Barreto”, sem obter qualquer tipo de resposta, 5 horas depois ligou. Nem imaginei que teria tal desplante … provavelmente a dizer que tinha pensado e que me ia arrendar a casa. A minha única resposta foi um real "Bloquear este número”. 
 
Decidi contar esta hstória não como qualquer forma de vitimização, poderia nem contar, tal como poderia não ter comentado com esta tal pessoa, mas decidi fazê-lo. Esta é uma história de realidade e não a história confortável que muita gente quer ouvir.
 
 
 
Marlene Barreto Frazão 

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