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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

Olhar para a cadeira do lado...

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 Já é tarde é verdade, o dia está a chegar ao fim , e os meus olhos teimam em fechar… mas o que senti hoje foi especial e senti necessidade de deixar uma mensagem positiva… 

A semana passada foi pesada. Tive um pico de ansiedade assustador. Já são muitos meses, anos a viver sob uma pressão imensa, Uma experiência de doença prolongada é traumática para quem a vive na pele e para quem acompanha diariamente. Ver alguém que amamos doente com reais probabilidades de perder capacidades é angustiante e não é algo que nos passe apenas com os períodos bons e tranquilos. Vivo em constante alerta, uma frase, uma palavra dita sem sentido é reviver um pesadelo com angústia .  Sei que não vou conseguir recuperar psicologicamente de um dia para o outro, sei que toda esta experiência vai deixar marcas fortes em nós e sinto que nunca mais serei a mesma de antes. Esta pessoa eu ainda não conheço, ainda não sei quem é, isso assusta-me. 
O cancro, tem-nos roubado muita coisa, a qualidade de vida, os sorrisos ingénuos, a paciência, as certezas, a felicidade sem sentimentos de culpa,  mas não nos roubou tudo. Não nos roubou o que de mais importante existe entre nós: amor, amizade, respeito, orgulho um pelo outro, companheirismo e compaixão. Ainda tenho muito para te dar, muita energia positiva e… só a preciso encontrar dentro de mim, porque eu sei que a tenho. Todos me dizem que sou forte, há dias que não acredito mas há outros que sinto essa força. 
Sinto um coração cheio de orgulho de ti, sinto que a tua força pode ser uma mensagem para tanta gente que não acredita no “impossível”, sinto que a nossa história tem uma missão … aliás, se há 8 anos atrás nos encontrámos foi porque o Universo tinha planos sérios para nós ( para mim e para ti individualmente mas unidos pela mesma história, pelo mesmo Amor) , e aqui estamos nós, hoje a cumpri-los, tal como estava marcado. 
Há alguns dias atrás , perdi-me por completo ... andei à deriva, senti medo de perder a noção da realidade. Perdi a noção de mim mesmo, senti que o chão não existia, o medo do desconhecido tomou conta de mim e a minha mente começou a querer enganar-me… (e felizmente as coisas estão tranquilas contigo, tens tido dias tão bons ….) mas é comigo mesma. 
Ainda não me sinto muito preparada para explicar o que aconteceu comigo ao certo, porque nem eu própria sei … a minha psicóloga chamou-o de uma crise psicossomática, sabia que existia mas não me passou pela cabeça que pudesse acontecer comigo. Hoje sinto-me mais calma, mais serena e com alguma paz de espírito. Quis o destino que conhecesse alguém muito especial, alguém que em apenas algumas horas conseguiu aquilo que muita gente já tinha tentado fazer comigo mas ainda não tinha conseguido: mostrar-me um caminho, dar-me a verdadeira razão da aceitação ( e não só porque sim, porque tem de ser)  porque não se consegue aceitar uma coisa que não se compreende. Sou teimosa demais para conviver com essa palavra ACEITAR mas esta resistência constante está-me a desequilibrar e a manipular … tenho de ser inteligente para entender quando este frente-a - frente é desvantajoso para o meu lado e por muito que me custe dizê-lo sinto na pele essa desvantagem, esse desgaste e a memória fraca, a difícil missão de estar concentrada mais que um minuto seguida são o reflexo disso. 
Mas hoje saí de casa com garra, tivemos mais um dia de hospital mas senti-nos “duros”, cheios de “fibra”… conseguimos rir no meio da dureza do momento, senti-me com força para te dar apoio e até abrir o coração a quem estava ao meu lado naquela cadeira de hospital enquanto esperávamos. Nem que viva 100 anos vou esquecer as palavras daquela velhinha que estava ao nosso lado: “ Os meus melhores dias, são aqueles em que venho fazer tratamento porque aqui posso falar”. E lá andava ela com os saquinhos de quimioterapia a percorrer toda a sala, falando com A, com B e com C até chegar a nós: “ Então meus meninos, está quase … e nós cá estamos fortes … é preciso é ir-se andando”. - “ Sem dúvida, estamos cá para a luta e virar as costas jamais será uma solução não é verdade ?” , respondi-lhe com um sorriso… e assim demos azo a uma conversa desprovida de obrigações, cuidados e ou responsabilidades. Havia alia apenas o compromisso de sermos honestos, verdadeiros e simplesmente seres humanos. 
Vim para casa com uma dor no peito, aquela velhinha , enrrugadinha de quem eu não sei o nome marcou o meu dia, entrou nos meus sonos e fez-me pensar em como é possível conseguir passar por uma provação destas sozinha... Sem um amigo, sem um filho, um familiar … fiquei a saber horas mais tarde que o marido vive a mesma doença, ao mesmo tempo que vive uma depressão e enquanto ele vai para o IPO, ela vem para o Santa Maria fazer mais um tratamento e por ironia das ironias ser um bocadinho mais feliz porque para ela é um dia diferente, um dia que vê gente, que conversa e que conversam com ela. 
Apetecia-me fazer alguma coisa por aquela velhinha, apetecia-me ver mais vezes aquele olhar sorridente e cheio de energia … apetecia-me fazer mais qualquer coisa por quem vive a doença em solidão… Um dia farei! Quem sabe se amanhã não será o dia?!

 

 

 
Marlene Barreto Frazão