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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

Será que acordei tarde ?

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Estou aqui ao teu lado meu amor ... A ver-te descansar enrroscarinho na nossa mantinha preta ... O dia não está a terminar de uma forma fácil , estás com dor de cabeça e a última vez que me lembro de dizeres que sentias uma, foi há 6 anos atrás quando este pesadelo começou. Estou a ser invadida por aquele sentimento mau que se chama Medo, o medo que a felicidade dos nossos últimos dias nos seja retirada! É impressionante como ele nos torna imóveis e nos deturpa a consciência. Fico cheia de dúvidas, de incertezas do que devo fazer e do que significa não desistir. 

Estou a tentar usar tudo o que tenho aprendido: pegar nas emoções negativas e transformá-las em pensamentos bons e vivências felizes...  Bem sei que passo os dias a dizer a mim própria o quanto preciso Aceitar a tua doença e por momentos acho que estou no caminho certo, mas a devastação do que a ela está associado quando alguma coisa de “anormal “ acontece é de tal forma cruel que faz doer o meu coração , dor de dor (real) …só Deus sabe o quanto nestes momentos precisava de um “colinho”, um conforto , alguém que também cuidasse de mim e que não exigisse a toda a hora que seja forte e inquebrável. Sempre fui sensível, com as emoções à flor da pele, o meu coração sempre falou alto e agora sinto-me sufocada, sinto que tenho de o calar muitas vezes e mostrar um ser de pedra que não sou. Porquê? Porque assim tem de ser! Assim dizem todos os que estão à minha volta. 
Ontem na missa, o que o padre falou , penetrou diretamente na minha alma:" há pessoas que passam por provas muito duras na vida mas ser cristão é aceitar o sofrimento “ … até poderia dizer: “sim, eu aceito”; mas quando te olho nos olhos derreto, fraquejo e sinto dor. Aceitar? Não tenho outro remédio. Essa é a única forma de calar um pouco o sofrimento e cheguei de facto ao ponto de precisar que ele perca a voz durante um bocadinho. 
Há 3 semanas tive aquilo a que se chama uma crise psicossomática .Sabia eu lá que isso existia! Comecei a somatizar alguns sintomas que tinhas tido… dificuldade em verbalizar as coisas, trocar as palavras, traição da memória … entrei em pânico. O que se estava a passar comigo? Estaria doente? Estaria a enlouquecer? Não quero que isso aconteça, nem por sombras. Quero estar bem, lúcida … por mim, por ti. A psicóloga ajudou-me a acalmar, a minha irmã deu-me conforto com algumas palavras ao telefone e foi nessa altura que descobri uma das pessoas que mais me está a ajudar neste processo e que espero continuar a ter a sua ajuda. Alguém com muita maturidade de consciência, com sensibilidade e com muita luz. Alguém que conseguiu pela primeira vez explicar-me o porquê da importância da aceitação. Preciso de compreender tudo, preciso que haja justificações plausíveis para que o meu cérebro encaixe e o meu coração se veja obrigado a seguir a consciência. 
Costumo comparar esta vivência com a experiência de estar embrulhada num lençol. O que é que sentimos quando não nos conseguimos soltar e encontrar a saída da respiração , por mais que esbracejemos, esperneemos ? 
 
Estou a escrever este texto não por estar deprimida - já reconheço bem as emoções - mas sim com medo de não estar à altura deste desafio, de bloquear quando mais preciso de te ajudar, que a minha consciência me traia e que o lençol não se solte e não encontre a saída da respiração … 
Mas confesso que tenho o coração a doer, cheio de dúvidas: Será que acordei tarde ?
 
Marlene Barreto Frazão