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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

Viver num hospital

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Hoje é a 4ª noite que pernoito neste hospital … o cadeirão não é assim  tão desconfortável mas o barulho que faz cada vez que tenho de me mexer é perturbador. As noites têm sido agitadas, não tens descansado nada.  A de hoje ainda não percebi bem como vai ser … sinto-te prostrado, demasiado cansado, a expectoração não te deixa descansar e o teu estado de alerta não te permite sonos longos. Ontem, não fechaste os olhos um segundo. Passaste a noite praticamente em branco, ainda subi na tua cama e usei a técnica das “festinhas” na testa para ver se adormecias, mas não tive grande êxito. O teu espírito está de rastos, tudo o que te está acontecer é de uma violência desmedida. Hoje percebi a tua lágrima no canto do olho, não tive coragem para te dizer nada. Limpei-a devagarinho e dei-te mais um beijo.

Passo horas a olhar para este quarto, já como se fosse um bocadinho nosso, o barulho da tua bomba de oxigénio infiltra-se nos ouvidos e os constantes barulhos das campainhas dos outros quartos não me fazem esquecer onde estou. Aliás é impossível ! Abro a porta do “nosso” quarto  e deparo-me com 4 ou 5 doentes em macas à espera de quartos. Costumo meter conversa com eles para que não se sintam tão sozinhos … o senhor da frente, que chegou hoje, pareceu-me demente. Agarrou-se a mim e queria beijinhos … o senhor do fundo apanhou-me a jeito e pediu-me um andarilho. Expliquei-lhe que não o poderia dar, já que não sou enfermeira. -“É com as meninas enfermeiras que tem de tratar disso”, disse-lhe mas ele não quis um “não" como resposta e ainda me acusou de o estar a chamar de incapaz. A outras tardias, há quem decida aparecer no corredor a gritar que quer tomar banho, outros gemem de dor( cada um com a sua) e  ouvem-se barulhos estranhos…. Uma enfermaria durante a noite ganha toda uma carga gigantemente dramática, chego a sentir um nó no estômago pela incógnita do sentimento de como será esta noite, mais uma noite. 
Hoje pedi para que te aspirassem antes de dormir, pois previ que toda aquela expectoração não te iria dar descanso e dado o teu desconforto durante o dia e na dúvida se estás com dores, as “meninas” fizeram-te um paracetamol. Olho para ti e pareces tranquilo. 
Depois de me desmaquilhar, fazer a limpeza de pele , lavar os dentes e de perceber que estás mais descansado abri o cadeirão e a minha irmã tapou-me. Começa a ser ritual, ela tapar-me e ir embora. É bom sermos aconchegados. A luz é baixinha e reconfortante, pelo menos isso. O quarto é individual o que nos permite ter alguma privacidade, fecho sempre a porta para podermos descansar melhor e se for preciso alguma coisa, saio a correr para chamar ajuda. Sinto-me mais segura aqui, essa é a verdade. As enfermeiras já me conhecem bem, tratam-te maravilhosamente.
 
Bem por agora vou tentar adormecer. As tuas saturações estão a 100%… nada mal. Por enquanto pareces-me em paz, Deus queira que se mantenha. 
 

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beijinhos meu príncipe, até amanhã
Marlene Barreto Frazão