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… Até à lua

… Até à lua

desabafos que não posso ter contigo ...

Até já, príncipe … olha por mim, meu herói

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Ontem deixei-te pelas 11h da manhã, precisava de vir a casa descansar… dei voltas na cama, tive sonhos revoltantes e levantei-me assim que reúni condições. Acordei com as maiores saudades tuas. Precisava urgentemente ver-te e aconchegar-te. Corri para o hospital e lá estavas … à minha espera… beijei-te infinitamente, cheirei-te, dei-te carinhos e limpei-te as lágrimas que corriam assim que sentiste a minha presença. Teve tanto de mágico como de duro, muito duro. Agora entendo, aquelas lágrimas eram uma despedida. Depois de tanta luta, foi a forma que encontraste para me dizer que estavas cansado, não havia mais condições para continuar uma luta tão inglória mas que foi também a promessa de que ficarias comigo para toda a eternidade. Irias caminhar ao meu lado a partir de outra dimensão…  sempre comigo até à lua. Sentiste a minha energia, eu também senti a tua. Foi a combinação perfeita da nossa alma.
A noite começou instável, o dia já o tinha sido, o anterior também. Bem sabemos que o físico já há muito que sofria. Embora as drogas ajudem a adormecer dor física e a atordoar a mente, a dor emocional não se consegue apagar. Sei que sempre me sentiste ao teu lado nestes 25 dias de internamento, deste-me vários sinais disso e agradeço-te pela tua magia. Agradeço-te pela forma como ao longo destes 7 anos enfrentámo este  “assassino”. Agradeço-te por estes 9 anos de amor incondicional em que fomos os seres mais felizes e que apenas o eu e o tu importaram.
Deitei-me no cadeirão ao teu lado e adormeci ao som do teu respirar. Era leve, muito leve. Mas ouvia-se, assim ao longe. Acordei 3 vezes e levantei-me para te tapar, para te beijar, para sentir de perto o teu respirar. Falei com a enf Carolina pressentindo que a tua respiração estava diferente. Ela confirmou que de facto estava leve, mas como ela dizia “ é impossível prever se vai acontecer daqui a uns minutos, umas horas ou alguns dias … sabemos apenas que um dia acontecerá Marlene”.
Voltei a deitar-me. Esforcei-me ao máximo para te ouvir respirar, mesmo com o som baixo da televisão de fundo. O relógio marcava 03h55 quando ouvi um suspiro diferente de todos os outros. Esforcei-me para o ouvir o suspiro seguinte, e o outro e o outro … e o som não saía. Levantei-me e fiquei a olhar para o teu peito. Não mexia, estava imóvel. Toquei-te na mão , beijei-te a cara… estavas tão quentinho. Porque é que não estavas a respirar? Chamei a enf Carolina e a enf Cristina. - “ Não estou a ver o Paulo respirar!”, disse-lhes na esperança que me dissessem - “ Calma, a respiração está apenas mais leve”. Mas não. foram rapidamente buscar a monitorização e após a confirmação abraçaram-me dizendo : “ O teu super-herói partiu.”
Tinhas partido, meu amor. Aproveitaste o silêncio da noite, o som do meu respirar e simplesmente partiste num suspiro doce e ténue. Sem sofrimento e isso ninguém me contou, fui eu própria que vi e ouvi. Nunca ficaria em paz se não tivesse sentido a paz que permitiu a tua partida.
Só te quis beijar, abraçar e ficar junto do teu peito mesmo que ali já não batesse um coração. Aquele corpo foi a morada da tua alma, a residência de um ser humano de que me orgulho muito. Um homem como nunca conheci nenhum. Havia sempre uma flor mesmo que não existisse motivo algum, um sorriso para todas as ocasiões, um carinho para aconchegar o coração em qualquer circunstância. Sempre foste de poucas palavras mas de gestos gigantes. Foste um herói em cada momento. Deitaste fora um prognóstico terrível que, há 7 anos atrás, deu-te 12 meses de vida e decidiste ser apenas FELIZ. Fomos felizes, vivemos uma história de amor de que me orgulho demais . Mas agora vão ficar as saudades. Saudades tuas ao entrar em casa, saudades de acordar ao teu lado,  saudades do teu cheiro, saudades do teu ronfonfô, saudades das nossas produções juntos, das nossas viagens de carro, das idas ao hospital, dos fins-de-semana a ver filmes, saudades dos teus beijinhos pelo meu corpo… SAUDADE é a palavra que fica. E dói, vai doer, vai doer demais e agora é de ti que espero ajuda, ajuda para superar, para caminhar, para conquistar sonhos, para buscar a luz.

Olha por mim do sítio onte estiveres. Mas olha mesmo. Tal como te disse ao ouvido, é um "até já… é só até nos reencontrarmos outra vez".
E tal como te prometi, não vale a pena andar à procura de argumento para uma bonita história. A tua é lindíssima e digna de uma bonita “produção”. Farei a minha parte, bichinho, só tens de fazer a tua aí de cima e teremos uma belissima história cinematográfica sem precisar de artíficios e pormenores inventados.

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Foi um orgulho partilhar estes anos todos ao teu lado. Um privilégio.

Amo-te até á lua!
Marlene Barreto Frazão

 

PS: antes de me vir embora, entreguei o postal que tinha escrito no dia de natal em agradecimento a toda a equipa de enfermagem. Falei-lhes quem eras ... não seria justo não te dar a conhecer, não mostrar o melhor de ti. Abraçaram-me dizendo: "não são apenas vocês a agradecer. Falamos em nome de toda a equipa, a vossa história ensinou-nos muito. Tudo o que foi feito durante estes 25 dias foi feito com o maior prazer, Marlene."

 

Obrigada à medicina 1A do hospital de santa maria pelo carinho e pelo afecto. Foram a nossa família estes dias.

És a melhor homenagem aos super-heróis

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Faço check no calendário no dia 24 de internamento. O Natal foi passado aqui  no hospital, tal como o Universo escreveu nas estrelas. Continuo à procura de respostas às dúvidas que este tempo suspenso proporciona no meu coração. Todos os dias dói e dói um pouco mais, mesmo sabendo que os prognósticos é que um dia já não custe assim tanto.
Fui descansar a casa, tomar um banho e ver a luz do dia… já não a via desde o dia 24 à tarde. Sentia falta. Mas repentinamente bateu uma saudade tão grande. Despachei-me e corri para o hospital. Abracei-te, beijei-te e disse -te , calmamente ao ouvido: “senti tantas saudades tuas". Assim que sentiste o aconchego da minha pele, começaste a chorar… limpei-te as lágrimas. Sabia que me estavas a ouvir. É tão mágico. Acariciei a tua pele sedosa, percorri o teu pescoço de beijinhos e elogiei a t'shirt que pedi que te vestissem: a do capitão américa. Todos os dias, temos feito homenagem a um super herói diferente: iron man, superman, star wars e hoje é dia do capitão américa. Peço desculpa por rasgar algumas das tuas t'shirts favoritas. O teu amigo G. ofereceu umas quantas e o teu irmão M. ofereceu também a do star wars para esse efeito. Fazer um rasgão atrás das costas é a única forma de as conseguir vestir , pois é preciso uma abertura fácil e as t´shirts têm tudo menos uma forma fácil de vestir nestas circunstâncias.
Enquanto escrevo, sinto a tua respiração tão instável. Está cansada mas a querer resistir…. como se o dia de amanhã ainda pudesse trazer consigo a esperança de uma cura. Fico perfundamente triste por não te conseguir dizer nem uma palavra de esperança, neste momento. Remeto-me ao silêncio, preenchido pelo som da música da Mariza “melhor de mim”, que marcará profundamente esta nossa fase de vida. Todos os dias, várias vezes toca na rádio e transforma-se na banda sonora desta estadia interminável aqui no hospital de santa maria.
No dia de Natal, fui comprar um lindo ramo de flores e uns chocolates como forma de gratidão pela forma como nos têm tratado aqui. São uma família, sinto-o. Escrevi um mega postal a contar e a descrever quem é o verdadeiro paulinho. Não é justo que estejas cá há tanto tempo e que as meninas ( enfermeiras) não tenham oportunidade de te conhecer. Perceber o sorriso lindo que tens, o humor fantástico , o coração gigante, a criatividade gigante, a energia contagiante. No entanto, não tive ainda coragem de o entregar. Entreguei as flores e os chocolates, o postal está guardado na mochila à espera de “sentir” o momento certo.
Levantei-me agora, e fui dar -te mais um beijo, mais um abraço e limpei mais uma lágrima tua. Desejava tanto que estivesses em paz mas não depende de mim. Sentir que sentes a minha energia é tão reconfortante por um lado, mas tão inquietante por outro. Sei que te alimentas dela …e podes alimentar-te à vontade, até quiseres, até conseguires. É por isso que aqui estou, para te alimentar visto que já não há mais alimento que o faça.

quero-te muito bem, quero o melhor para ti. Que Deus decida em consciência.
adoro-te muito,

 

 


até à lua.
Marlene Barreto Frazão

Abre os olhos, levanta-te e vamos para casa.

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Não consigo encontrar palavras para descrever as vivências destes últimos dias. Os meus níveis de energia estão a zeros, não resta nada a não ser uma angústia enorme ao olhar para ti enquanto dormes “tranquilo”. 

Contabilizamos 19 dias no calendário deste internamento “infinito”. Em todos estes dias as horas de sono rondam 1 /2 horas por noite . A tua agitação, o teu sofrimento exigem um estado de alerta completo. Não é possível dormir, a possibilidade de passar pelas brasas é um luxo. Estás mal, multo mal e agora só me resta acreditar numa passagem tranquila, livre de dor e sofrimento.
Por várias vezes falei com os médicos para me certificar sobre as hipóteses de “recuperares” deste episódio. Nas duas primeiras semanas todos tentaram reverter o quadro de pneumonia. Unimos forças entre médicos, enfermeiros, família e amigos. Entre antibióticos, aspirações constantes, gritos de alarme no momento que desaturavas a pique acreditámos que ainda poderia ser possível levar-te para casa mas agora já percebemos que a pneumonia não é bacteriana mas sim uma défice neurológico que afecta o teu sistema respiratório . E isso muda tudo de figura. É a doença a não dar tréguas. 
Hoje tomo a percepção que já não te vou ver “sorrir”, levantares-te dessa cama e dizer-me:” vamos jantar ao império".... Ou " tenho bilhetes para o Star Wars no imax, despacha-te para irmos!" Vai acontecer em sonhos, memórias e recordações, isso vai. 
Na quinta feira , os cuidados paliativos subiram ao 6' piso do Santa Maria. Tínhamos consulta marcada para dia 16 de dezembro mas como estavas internado, pedi para que a medicina interna os contactasse para que viessem ao teu encontro.
Eu não estava. Foi provavelmente a única hora que me ausentei nesse dia para ir a casa, tomar um banho e trocar de roupa. No entanto, a minha irmã passou-me a mensagem: "os cuidados paliativos vão ligar -te à tarde para comunicar o que foi decidido." A verdade é que bem poderia ficar à espera, mas sentada para não me cansar.
Comportamentos estranhos começam a acontecer em volta do nosso quarto. A máquina da monitorização de oxigênio desapareceu, a máquina de alimentação por sonda estava desmontada em cima da mesa. A tua máscara de oxigênio estava a 60%. E parece que havia uma “ordem" de não te aspirar porque te é demasiado traumatizante. Já percebi que as perspectivas de uma sobrevida mais longa é para esquecer. A partir de agora serão
accionados os métodos de conforto para te sentires sereno. 
Mas estava confusa, assustada… até o capelão foi chamado ao quarto por uma enfermeira não identificada. Parece que se oculta algo. Não entendo! Estou há anos nisto, conheço a doença , sei do prognóstico.... Vamos lá ser sinceros. Não preciso de paninhos quentes agora. O teu irmão ficou comigo.
Talvez possa apontar a madrugada de sexta-feira como a pior da minha vida. Nunca tinha vivido nada assim, nunca tinha imaginado sequer viver. Quase te perdi nos meus braços a agonizar com falta de ar. As lágrimas caíram-me compulsivamente, só te queria mais um bocadinho comigo. É ser egoísta? Acho que não, apenas sinto que ainda não estou preparada para uma despedida. “ Tenho medo”, foram que juro ter-te ouvido prenuniar naquele momento enquanto a falta de ar te tirava forças.  As palavras saíram-te quase sem som mas eram muito claras para eu as perceber. 
“Queres continuar a lutar, amor?!”, perguntei-te desesperada … e acenaste que “sim” . Começámos ali aquele que foi um dos momentos mais fortes daquela noite: “ para fora, para dentro. para fora, para dentro...” e repeti-te estas palavras duas horas de seguida até te sentir mais confortável. Heroicamente, conseguiste recuperar uma respiração mais tranquila. Ao contrário do protocolo definido pelos paliativos (a que resististe devido ao pânico) e  juntando a humanidade da enfermeira C. aspirámos-te e conseguimos subir-te a saturação. Nunca esquecerei que a médica de urgência do serviço dessa noite rejeitou vir ao nosso quarto socorrer-te, com o argumento que és "um doente paliativo que tem uma equipa especializada ... por isso nada poderia fazer"?! . Por ser um doente paliativo merece morrer asfixiado, sra doutora? Parece que os conceitos não se coadunam ... se é paliativo é para partir sem sofrimento....
Agora mais calma, levantam-se tantas questões … Como é que uma médica de urgência rejeita socorrer um doente que está a agonizar? Como é que não existe um médico de cuidados paliativos de urgência? Como é que se pode permitir que alguém parta em tamanho sofrimento, mesmo que o prognóstico delimite o fim?! Que humanidade é esta? Sinto-me pequenina demais perante questões tão gigantes... é mesmo uma impotência enorme.
Ficaste confortável e fechaste os olhos para descansar A tua respiração embora descontrolada, nada tinha a ver com a respiração da madrugada. Ofegante mas mais controlada. 
Fico a olhar para ti e penso que não és tu só que tens medo, amor. Eu também o sinto. Sinto medo de não estares comigo, de não saber como será a minha vida a partir daí. Não quero ser egoísta mas ainda não consegui concretizar na minha mente a ideia de uma partida. 
Tens lutado acima das tuas forças, tens dado o melhor de ti e sinto muito por não poder fazer mais. Não te poder dar essa cura tão desejada, essa melhoria tão ansiada.  Até hoje o nosso amor tem conquistado milagres mas não esse. 
Não te quero ver sofrer mais daquela forma ... não quero uma partida tão cruel... prefiro-te assim sereno, a dormir como um bébé, aquilo que para mim foste toda a vida. O meu bébé.
Um jovem de 34 anos, que só há um mês e meio atrás se viu privado de movimentos, força e capacidades. Um jovem que está muito ligado à vida… não é mesmo suposto aceitar uma partida. Faz pouco sentido. Sentes medo, eu também sinto.
Enquanto escrevo oiço-te respirar profundamente. Por momentos, juraria que não tens nada. A minha vontade é acordar-te e dizer: “Bora, abre os olhos levanta-te  vamos para casa”… queria tanto que fosse possível…
 
Ontem, ouvimos Simon & Garfunkel e Queen . Entretanto passou o Boxer,. Comentei com a enfermeira M. que era música do nosso casamento  Foi um momento forte. Não esqueceremos.
Agora é a vez de Cat Stevens … que tantas vezes ouvimos juntos. 
 
Entretanto a equipa de enfermeiros convidou-me para o jantar de Natal do serviço. Aceitei.  Têm sido  a nossa família. É inexplicável a bondade, a solidariedade e o carinho que sentem por nós. Nunca vou esquecer os serões no nosso quarto em redor da tua cama em que lhes contava o realizador de mão cheia, o marido carinhoso, o amigo fiel, o homem bondoso que és. Que orgulho sinto em ti meu amor. 
 

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Amo-te cada vez mais , sabes disso. 
 
 
 
 
 
 
 
 

13 dias deste quarto ...

 

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 Faz hoje 13 dias que a nossa casa passou a ser este quarto, o teu quarto, o meu quarto … o que é teu é meu e vice versa, sempre foi assim e não será diferente daqui para a frente… o melhor de mim é teu, meu amor. 

Estas duas últimas noites têm sido mais tranquilas. Começaram a dar-te uma nova medicação para secar as excessivas secreções resultado da pneumonia e a quantidade de aspirações diminuíram um pouco. A adicionar a isto, ainda te prescreveram analgésicos para acalmar a dor. Embora me dissessem que não tinhas dor, e tu próprio fechasses os olhos sempre que te perguntava , não acreditei que não a sentisses até porque começou a ser bastante evidente pelos teus gemidos. Percebi que a tua dor vinha do peito. É mais do que óbvio que as tuas vias respiratórias estão traumatizadas de tanta aspiração e dificuldade em respirar. E desde que começaste a tomar os analgésicos acalmaste bastante e estas duas noites conseguimos 5 horas de sono seguido. 
Estou com receio quando te tentarem tirar a sonda. No caso de doença neurológica, vão se perdendo os reflexos e saber comer é um reflexo, assim como respirar … é visível demais os tremores na mão esquerda, certamente que já te apercebeste disso ou não estavas sempre a tentar levantar a mão. O que se passará na tua mente, amor?  De que forma consegues exorcizar os teus medos, as tuas angústias aí nessa cama sem conseguir falar, mexer?? Aperta-me o coração, sei que sofres mas sofres sozinho e não consigo de maneira nenhuma entrar nessa coração e amenizar um pouco a tua dor. 
Agora preocupa-me que os níveis inflamatórios tenham subido. Os médicos andam a tentar perceber a razão e ainda não se chegou propriamente a uma conclusão. Talvez amanhã consigam adiantar qualquer coisa. Hoje apenas me disseram que suspenderam o antibiótico durante o fim-de-semana para tentar entender se o aumento dos níveis viria dos pulmões . 
Entretanto, oiço-te gemer. percebo que tens dor. Já pedi que te fizessem o analgésico. Já foi feito mas continuas desconfortável. Aspiraram-te mas começa a ser insuportável para ti, um misto entre quer ficar mais aliviado mas o processo é tão doloroso e invasivo que praticamente desistes antes de começar. As saturações não estão más mas a avaliar pelo barulho, vou ter de avisar alguém, caso contrário vais te engasgar. 
Já me avisaram que o Natal este ano será por aqui. “Entendemos que este seja um momento de família e que gostava de levar o Paulo para casa, mas infelizmente não haverá condição”, disse-me a equipa médica assim a medo. As lágrimas caíram-me pelo rosto mas acenei que “sim” com a cabeça. Não posso de deixar de compreender e de me sentir mais segura aqui, neste quarto. Já foram dezenas as vezes que tive de gritar a pedir ajuda… em casa não haverá condição, eu sei. Prefiro pensar no que te fará sentir melhor ,  e certamente é estar aqui, ser assistido a qualquer momento. Portanto, sim, vamos passar o Natal neste quarto e até já pensei no teu presente. Bem sei que não estás nem aí, na verdade também não estaria se efectivamente não tivesse um significado muito especial . Pedi a dois amigos ilustradores para concretizarem o “Super P”, o super-herói dos super-heróis com o teu rosto em criança. Há umas semanas atrás, em jeito de brincadeira começámos as aventuras deste super-herói, um menino pintas cheio de criatividade, doce, educado e com o maior coração do mundo. Desde sempre apaixonado por super -heróis, percebe que as aventuras de uma vida não acontecem apenas àqueles seres voadores e de força exorbitante dos filmes. Um dia descobre o seu super poder tornando-se num autêntico . Através de si tem uma bonita missão: a de contar uma história de esperança, de amor e de luta… Esta é a tua história, meu amor e tenho muito orgulho em fazer parte dela… Este super herói é real. Os super-heróis, afinal, existem mesmo e tu és o super P !
 

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muito orgulho em ti meu príncipe.
Marlene Barreto 

uma noite sem fim!!

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São 07h30 e não preguei olho. A tarde de ontem já não tinha corrido bem, pois tinha sido marcada por duas baixas de oxigénio que se traduziram numa noite de pesadelo. No início da noite , ainda te achei desperto e razoavelmente bem mas por volta 01h00 a tua respiração começou a ficar ofegante. As aspirações têm sido constantes mas mesmo assim insuficientes para a quantidade de secreções que "nascem" nos teus pulmões. Na altura, quando pedi que te aspirassem, disseram - me para esperar e ainda fizeram a observação que não o poderiam estar sempre a fazê-lo, pois estaria a causar trauma na zona, e sim já me tinha apercebido pelo sangue no depósito de secreções.  Mal conseguias respirar e os teus níveis de oxigénio no sangue começaram a descer a pique. Corri para o corredor para chamar alguém , enquanto a máquina apitava marcando 70% de so2. Assim que a enfermeira chegou, disse-me que já te tinha colocado a máscara dos 100% e que muito mais não dava para fazer.  Estas palavras do " muito mais não dá para fazer" é o típico discurso que tenho ouvido nos últimos tempos... Perguntei-lhe se não dava para fazer os ventiladores/bombas que as colegas costumam fazer. No entanto, a oxigenação já marca 60%... e lá se decidiu chamar o médico de urgência.... Na verdade o senhor também pouco tinha para ajudar sobretudo as palavras pouco esperançosas. " sabe qual é o prognóstico,  não sabe? deve-se preparar para o pior ". Pedi-lhe encarecidamente para não falar de prognósticos ali no quarto contigo, nunca o tinha feito ao longo de 7 anos, não ia ser agora. Estás a lutar pela vida, não é justo! Pediu-me desculpas e saímos para falar. Expliquei-lhe que na primeira noite tinha acontecido isto e que a médica o tinha mandado posicionar de determinada forma. O médico concordou com a "solução" e assim se fez o posicionamento para um dos lados. No fundo o que se está a fazer é desobstruir um pulmão, passando as secreções para o  outro. A oxigenação começou a subir, graças a Deus....conseguiste ficar calminho pelo menos umas horinhas mas por esta altura já estava em sobressalto demais para conseguir dormir. 

Serviram-nos um chá calmante, a mim e à minha irmã que estava comigo. Ainda fui ao cadeirão meia horinha mas os atacadores dos ténis demasiadamente apertados e a necessidade de não querer entrar em sono profundo mantiveram-me alerta. 

Estava impaciente e nervosa com o barulho que estavas a fazer enquanto dormias. Era um gemido de sofrimento, pudera, estás a sofrer horrores e sou testemunha disso . Precisamente nesse momento que te estava a tentar acalmar, fazendo as já típicas festinhas na testa, apercebi-me que algo te estava a acontecer: olhos bem acesos, dois gritos já bem reconhecidos antecedem a convulsão. Não estava a acreditar!!!!  "Que mais vai acontecer esta noite?! Isto é muita coisa para uma só pessoa!" Carreguei na campainha de emergência e posicionei-te para que não te engasgasses. Vim até à porta e gritei! Meio segundo depois estavam ao teu lado duas enfermeiras e um médico. Preferi sair. Não estava a aguentar ver tanto sofrimento.... Lembro-me de estar frente a um placard de saídas de emergência e ter pregado dois murros de raiva, caíram-me incontrolavelmente lágrimas, respirei fundo e voltei a entrar. O ataque tinha terminado mesmo antes da injeção SOS....corri para ti e dei-te um beijo, um beijo na testa, no ombro, no pescoço. Era o máximo que conseguia fazer, infelizmente.

Não consigo aceitar que uma pessoa tenha de passar por este sofrimento todo. Defende-se "não à dor, ao sofrimento antes de partir" então isto é o quê?! 

Não aguento mais ver-te assim, sobretudo porque sei que estás a sofrer... Os teus olhos revelam consciência e descrédito ao mesmo tempo. Sabes perfeitamente o que está a acontecer , aliás mais que ninguém, sentes. E eu, eu só sinto impotência e tristeza. Já nem consigo dizer-te nada, faltam-me as palavras!

A enfermeira do turno da manhã veio agora falar comigo sabendo que a noite não foi fácil ... Deu-me um carinho e mandou- me para casa recuperar força, mas a verdade é que fico com receio que não te oiçam se precisares de alguma coisa :( 

 

Vou então ... Até já príncipe. 

Um grande abraço apertadinho com o meu cheirinho e um coração cheio de amor é o que tenho para deixar.

 

Marlene Barreto Frazão 

 

Viver num hospital

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Hoje é a 4ª noite que pernoito neste hospital … o cadeirão não é assim  tão desconfortável mas o barulho que faz cada vez que tenho de me mexer é perturbador. As noites têm sido agitadas, não tens descansado nada.  A de hoje ainda não percebi bem como vai ser … sinto-te prostrado, demasiado cansado, a expectoração não te deixa descansar e o teu estado de alerta não te permite sonos longos. Ontem, não fechaste os olhos um segundo. Passaste a noite praticamente em branco, ainda subi na tua cama e usei a técnica das “festinhas” na testa para ver se adormecias, mas não tive grande êxito. O teu espírito está de rastos, tudo o que te está acontecer é de uma violência desmedida. Hoje percebi a tua lágrima no canto do olho, não tive coragem para te dizer nada. Limpei-a devagarinho e dei-te mais um beijo.

Passo horas a olhar para este quarto, já como se fosse um bocadinho nosso, o barulho da tua bomba de oxigénio infiltra-se nos ouvidos e os constantes barulhos das campainhas dos outros quartos não me fazem esquecer onde estou. Aliás é impossível ! Abro a porta do “nosso” quarto  e deparo-me com 4 ou 5 doentes em macas à espera de quartos. Costumo meter conversa com eles para que não se sintam tão sozinhos … o senhor da frente, que chegou hoje, pareceu-me demente. Agarrou-se a mim e queria beijinhos … o senhor do fundo apanhou-me a jeito e pediu-me um andarilho. Expliquei-lhe que não o poderia dar, já que não sou enfermeira. -“É com as meninas enfermeiras que tem de tratar disso”, disse-lhe mas ele não quis um “não" como resposta e ainda me acusou de o estar a chamar de incapaz. A outras tardias, há quem decida aparecer no corredor a gritar que quer tomar banho, outros gemem de dor( cada um com a sua) e  ouvem-se barulhos estranhos…. Uma enfermaria durante a noite ganha toda uma carga gigantemente dramática, chego a sentir um nó no estômago pela incógnita do sentimento de como será esta noite, mais uma noite. 
Hoje pedi para que te aspirassem antes de dormir, pois previ que toda aquela expectoração não te iria dar descanso e dado o teu desconforto durante o dia e na dúvida se estás com dores, as “meninas” fizeram-te um paracetamol. Olho para ti e pareces tranquilo. 
Depois de me desmaquilhar, fazer a limpeza de pele , lavar os dentes e de perceber que estás mais descansado abri o cadeirão e a minha irmã tapou-me. Começa a ser ritual, ela tapar-me e ir embora. É bom sermos aconchegados. A luz é baixinha e reconfortante, pelo menos isso. O quarto é individual o que nos permite ter alguma privacidade, fecho sempre a porta para podermos descansar melhor e se for preciso alguma coisa, saio a correr para chamar ajuda. Sinto-me mais segura aqui, essa é a verdade. As enfermeiras já me conhecem bem, tratam-te maravilhosamente.
 
Bem por agora vou tentar adormecer. As tuas saturações estão a 100%… nada mal. Por enquanto pareces-me em paz, Deus queira que se mantenha. 
 

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beijinhos meu príncipe, até amanhã
Marlene Barreto Frazão 

 

Olho para ti e contemplo o teu rosto ...

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O relógio marca 01:21,é a minha primeira noite no hospital . A hospitalidade tem sido gigante, já me foram buscar um cadeirão, um cobertor quentinho e ainda tive o direito de ser tapada pela enfermeira. Que aconchego bom. No entanto, os meus olhos não têm a coragem de fechar., não consigo tirar os olhos da maquineta da saturação de oxigênio e dos teus batimentos cardíacos. Saturação a 100%, batimentos a 95... Tudo normal mas a tua expressão por vezes mostra desconforto e agitação. Não consigo perceber se precisas de alguma coisa... Cada vez que abres esses lindos olhos verdes sinto pânico... Eles abrem ao limite como se por rasgos momentos quisesses gritar, chorar e ter o direito à raiva mas não… Nem isso a puta desta doença te dá a esse direito. Estás preso, completamente preso a um corpo inerte mas a uma consciência sã. Nem mesmo se tivesses ligado dos pés à cabeça conseguirias estar mais preso. A noite adivinha-se longa... Tenho medo. Sinto os teus pulmões tão fraquinhos. O teu corpo está mais debilitado que nunca ... Mas por outro lado penso: és tu, o maior resistente, o lutador dos lutadores, aquele cuja teimosia sempre foi o seu maior trunfo. Vamos lá reagir bichinho , aguenta forte , dá a volta e respira …. Vamos para casa, a nossa casa.... Se há 9 anos quando nos conhecemos me dissessem que ia estar aqui , nem por sombras iria acreditar. Isto não estava no guião que desejei para a nossa história... Ninguém deseja essa é a verdade. Por agora, olho para ti e contemplo o teu rosto através desta luz ténue que a enfermeira simpaticamente nos arranjou … Olho para a maquineta e vejo a saturação a descer a pique …. estás agitado e percebe-se que não consegues respirar confortavelmente. Vou chamar a enfermeira para nos ajudar , espera um pouco …. respira devagarinho baby , concentra-te e respira…. já volto, vou procurar quem nos ajude.

 

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Meu príncipe

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“amor, já passámos por fases más e conseguimos ultrapassar… vamos acreditar… vamos continuar a fazer esse esforço. É preciso ganhar força, sair desta cama e Viver”. Mas que tamanha mentira que eu te preguei. Passámos por fases más, é verdade, mas não piores que esta. Nem por sombras. Aquilo que te está a acontecer é desumano, é de uma crueldade psicológica que não tem explicação.

Sempre acreditei numa força superior, num Deus protector mas onde esteve essa protecção hoje? E ontem? Onde estará essa protecção amanhã? Sentes-te decepcionado e desiludido com o destino e tens toda a minha compreensão para te sentires assim. Não vou exercer sobre ti qualquer tirania de “pensamento positivo”, não seria justo. Vou dar-te o espaço de que precisas para estares triste, tens todo direito a essa revolta. Só tenho de estar … apenas isso e ser as “pernas” que agora te faltam, as “palavras” que se apagam, as “capacidade ” que teimam em ir embora. De repente , vês-te num corpo que nunca foi o teu, que não responde, paradoxalmente a um cérebro que muito embora doente continua teimoso e resistente.  E sim sinto-me tamanhamente desapontada por te ter injectado uma força desmedida que acabou por se transformar numa autêntica desilusão, frustração e desgaste …

Hoje  tinha-te prometido ir comprar um hambúrguer daqueles que adoras. Não me interessa se é fast food, se é carne vermelha ou fritura … só quero que comas e qualquer coisa serve… Há semanas que não comes sem efeito da medicação para o vómito. Os espasmos no estômago são violentos e nada resiste a eles. Já me estava a preparar para ir, quando me disseste: “também quero ir contigo”! De repente, fiquei tão orgulhosa e feliz. A vitória do quereres sair de casa, contrariar os pensamentos tristes era o que interessava e nem valorizei muito o que significaria “ires.” Estavas a fazer o que te tinha pedido, e chamava-se REAGIR. Tens a força de um leão, meu doce!  O teu cérebro é tão resistente que a teimosia de conseguir, concretizou -se numa numa saída de casa, depois de 5 dias de cama em casa após o internamento. 

Tratei imediatamente da logística… Liguei ao teu irmão M. para nos ajudar a transportar-te até ao restaurante , e juntamente com a tua mãe e a E. lá fomos nós. Só nunca pensei que fosse uma experiência tão difícil e dolorosa : o teu corpo não está a responder e os teus movimentos estão a esquecer-se deles próprios e tu tens toda a coensciência disso! Dói demais !!! Estou a perder-te para esta doença maldita e não consigo fazer NADA, a não ser ESTAR. Não estou habituada a ESTAR apenas, a minha natureza é a reacção mas neste momento não serve de nada. 

 
Que vazio, que falta de palavras, que merda de situação … e não, não há frases bonitas, esperanças cheias ou olhares crentes que sobrem… 
 
olhando -te nos olhos, de uma coisa tenho a certeza … és o meu príncipe e sim estou aqui para tudo, para o que der e vier. 
 
amo-te muito bichinho e bem mais que ontem.
 
Marlene Barreto, (orgulhosamente por ti ) Frazão. 

"Há quantos anos tenho Cancro?"

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“Há quantos anos tenho Cancro? “ perguntaste tu, assim meio que do nada enquanto tomávamos café no hospital , sim porque hoje foi dia. -“Acho que há mais ou menos 6 anos”, respondi-te engolindo em seco com aquela pergunta inesperada. Tentei relativizar fingindo nem me lembrar bem para não dar peso àquela pergunta e consequentemente à minha resposta, mas percebi exactamente o que estavas a pensar. Engraçado que senti o mesmo assim que acordei de manhã : “Mais um dia naquele hospital…” De facto são 6 anos que de 15 em 15 dias (sem descanso) passamos 7 horas entre aquelas paredes. Bem podemos rir, brincar mas pesa, pesa muito … o teu corpo perde energia para se levantar de manhã sempre que é dia de hospital, e não tendo eu muita mais , tenho de fingir que tenho… sim fingir porque é isso que faço finjo que é mais um dia … “Bora lá acordar!!!” como se ...uhhh... adivinhasse ser um dia dia super divertido , com a energia positiva bem lá em cima. Há 6 anos que finjo, há 6 anos que acreditas no meu fingimento mas se tiver de continuar a fingir e te conseguir dar força, vontade e esperança para te levantares da cama para mais um dia de hospital , então continuarei a fingir.

Ainda levei o computador para ver se trabalhava mas mal o abri , “ Paulo Nuno Frazão - gabinete 3 “, ouvimos pelo interfone a doutora chamar. 
Conhecida como “a bruxinha das análises” , como diz a dra, previ que hoje não fosse acontecer tratamento. “ Será que as análises já saíram ou eles estão a contar uma a uma lá em baixo? “ , perguntei eu em tom de ironia . “- Lá está a bruxinha das análises a tentar adivinhar… “ respondeu a doutora devolvendo o mesmo tom. 
Pelas minhas contas, hoje era dia de estarem baixinhas. E estavam , 30,000 . Baixam imperativamente e não há nada a fazer contra isso, mas continuo a acreditar que é necessário estimular a medula óssea com o uso de suplementação,  alimentação adequada e eletromedicina para que o tempo de quebra seja o mais pequeno possível . Acho que dentro da medida do possível temos conseguido
Assim que a doutora nos disse, que as plaquetas estavam “miseráveis”, começaste a rir ( acho que foi mesmo pela expressão que ela usou) mas para mim não foi surpresa. -“Tem já uma verdadeira médica em casa, Paulo”, observou ela. - “Médica é tudo aquilo que não quero ser.” , disse-lhe. - “A Marlene era daquelas que em miúda desmaiava ao ouvir falar de doenças?”, perguntou-me, ao que lhe respondi: -“Desmaiar não desmaiava mas sempre fui hipocondríaca"; - “ Para uma hipocondríaca nem se está a sair mal! “, continuou. Juro que esta observação mexeu comigo … o que queria ela dizer com isto? É suposto ser um teste? Sair-nos bem ou mal? Não sei se gostei , não gosto de me sentir avaliada nesta situação , já bastam todas as outras situações profissionais da minha vida. Sei lá, soa a : “ até tem estado +/- à altura da coisa …” Bolas , todos os dias faço para tentar estar “+- à altura da coisa”, faço uma ginástica mental para mandar o destrutivo para trás das costas , tento desempenhar um papel de apoio imaculado suportando-me única e exclusivamente nas minha horas de terapia e no meu trabalho que é aquilo que me sobra. Portanto, não compreendi o que seria o contrário daquela observação ( ou seja, aquelas pessoas que supostamente não se saem tão bem), mas siga, é mais uma daquelas que vai para trás das costas. Um dia quando tiver de arrumar a casa , ou seja aquilo que vai  “ para atrás das costas” vou encontrar muita porcaria para limpar… enfim!!!
Saímos do Hospital , tirámos a nossa habitual foto e aproveitámos para vir a discutir o nosso projeto de teatro. Sei que a tua emoção não é a mesma que a minha, sei que muitas vezes nem ouves o que te estou a dizer mas já me alenta o coração saber que gostas da ideia. Sim tudo tem partido da nossa vivência e da experiência naquele hospital. Sinto que há uma mensagem muito forte para se passar e quero muito fazê-lo contigo, este é uma espécie de voluntariado e de solidariedade para com os que passaram, passam e os que hão de passar por este terrível caminho movediço. 
Espero em Setembro conseguirmos pôr mãos à obra, estou ansiosa, tenho inclusivamente medo de não estar à altura, mas esse é mais um pensamento que tenho de mandar para trás das costas …. vamos mas é desbravar caminho, pedir ajuda a todos os que nos podem ajudar e deixar a nossa marca. 
 
hora dos miminhos, já aí vou baby … 
 
… até à lua ….
Marlene Barreto Frazão 

3 anos de "sim"...

We do Weddings - Trash The Dress - Paulo & Marlene

 

Hoje deixemos a doença atrás das costas, os medicamentos dentro da gaveta, as dietas alimentares para amanhã ou os pensamentos negativos, que imperativamente assombram a minha mente para nunca mais ( e quem me dera que assim fosse) … Hoje dia 21 de Julho (de um ano qualquer a partir de 2012) é um dia de que me orgulho muito, um dia que marcará para sempre todas as conquistas juntos.  

Senti-me uma princesa, assim que coloquei aquele vestido. As borboletas começaram a sobrevoar-me o estômago, os risos a descontrolarem-se e as pernas a abanar. Achei por bem ligar-te para confirmar se já estavas acordado, não me admirava nada que estivesses ainda a desligar o despertador pela vigésima vez,  mas não … não só tinhas a pestana aberta como ainda me disseste que estavas na sala das análises à espera de ser atendido …  - "MEU DEUS, se vires que vai demorar muito tempo diz-lhe que tens de estar às 11horas no Lumiar porque vais CASAR"; - "Vou tentar!"; disseste com toda a tua calma. Por momentos senti pânico. Não era justo! Até no dia do nosso casamento não foi possível evitar a habitual ida ao Hospital para que as análises estivessem prontas logo na segunda-feira de manhã para a consulta. ( bem, toda a parte do hospital é bem verdade , mas àquela hora já estavas em casa com tudo tratado, estavas apenas a arranjar da bonita para testar os meus limites). 

Tudo foi perfeito: tu, eu, os nossos amigos e familares ... o padre Robson e a cerimónia foram perfeitos. A magia aconteceu mesmo naquele dia, não tenho dúvidas.  Ainda me lembro do que senti à medida que percorria aquela passadeira, sempre tentando disfarçar o sorriso forçado só para não me emocionar e desatar a chorar que nem uma perdida. Todas as emoções teimaram em ganhar protagonismo naquele momento e tentar filtrá-las não foi uma tarefa fácil. Não esqueço a tua calma e descontração absolutas enquanto olhavas para mim. Mas conheço bem o teu "ar sem jeito", camuflado na tua bem trabalhada auto confiança, a mim não me enganas. 

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A cada ano que passa faço questão de fechar os olhos e sentir. Sinto perfeitamente aquele momento, recordo em modo de flashback  emocional o teu cheiro, os sorrisos, os olhares.
Achei que toda aquela magia era mais do que justa e merecida depois do que já tínhamos passado ao longo dos últimos 3 anos depois de descobrimos o " monstro" que tinha surgido dentro de ti. Mas não havia vestígios, ele estava mudo, calado e pensei ingenuamente que nos tinha largado . Éramos tão novos ( eu com 24 e tu com 26 ) … hoje, seis anos depois , continuamos a sê-lo demais para lidar com toda uma expectativa de vida defraudada às custas deste "merdas". 
Na altura quando a médica nos disse; " Marlene, em 5 anos de doença inactiva , vocês casaram, viajaram e foram felizes..," não compreendi esta observação , não a quis aceitar e devolvia - a com arrogância dizendo que" o passado não interessa , interessa- me falar do futuro". Hoje, sabendo de tudo e da forma que sei , claro que o passado interessa, tudo o que esse " merdas" nos permitiu foi tão grandioso que o futuro perde qualquer importância.... O que é o futuro a não ser especulações da nossa mente? Especulações que não são nada, não valem absolutamente nada porque não somos nós a assumir o controlo da vida, ela sim assume o controlo de nós.. Não sejamos ingénuos ! 
Hoje comemoramos 3 anos de "sim" e 8 anos desde que trocámos o primeiro beijo ... Acreditas que mal me lembro daqueles primeiros dois anos de namoro em que não havia nada de péssimo para nos preocuparmos? Irónico não é? Passaram tão rápido até ao diagnóstico que os resumo em poucos meses até à decisão efectiva de querermos ser apenas felizes. 
Hoje enquanto comemorávamos o nosso terceiro aniversário disse-te "que havia escolhido o miúdo mais giro da festa" e ouvir a tua resposta arrepiou -me: -" sou tão feliz contigo!!". Tinhas todos os motivos e mais do que direito à tristeza e revolta, mas não, estás a escolher ser feliz. Isso é de uma capacidade sobre-humana !! Há tanto a aprender contigo. 
Enfim, hoje estamos de parabéns, hoje fomos felizes, rimos, demos as mãos, tiraste- me fotografias, eu pintei os lábios , vesti  vestido, tu uma camisa e fomos festejar!
 
 

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 PS: Obrigada por teres sido tu a conduzir , bem sabes que detesto conduzir de saltos! :)